Ciência e Notícia

Universidade Federal de MS

Do laboratório para a mesa

19/10/2009 às 07:00

Depois da soja e do milho, agora é a vez do plantio do arroz transgênico ir para aprovação na CTNBio

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Bruno Grubertt

A liberação do plantio do arroz transgênico LL62, com tecnologia Liberty Lynk desenvolvido pela multinacional alemã Bayer, é alvo de polêmica e ainda não foi aprovada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). A primeira vez em que a pauta foi discutida pela Comissão foi em março e, de acordo com o presidente da CNTBio, Walter Colli, a retomada da polêmica deve demorar, já que existe um grande número de manifestações contra a aprovação.

Organizações ambientalistas e de defesa do consumidor são contrárias à liberação, por defenderem que não há pesquisas suficientes para determinar se o consumo do arroz geneticamente modificado afetaria ou não a saúde humana. Depois da liberação do plantio e comercialização da soja e do milho transgênicos, que aconteceram respectivamente em 2003 e 2008, o arroz é o que mais tem gerado polêmica por ser um dos grãos mais consumidos pela população.

A variedade LL62 de arroz é resistente ao herbicida Glufosinato de Amônio, que controla pragas daninhas nas plantações. O receio de entidades ligadas à produção é de que o grão modificado “contamine” as lavouras com sua resistência.

Flávio Breseghello, pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão localizada em Goiânia, afirma que o gene do arroz da Bayer causaria “problemas agronômicos ainda maiores ao país” em caso de liberação neste momento.  “O arroz vermelho transgênico se tornará dominante com esse herbicida [glufosinato] e pode atingir espécies de arroz silvestre do Brasil”, disse Breseghello. “Será impossível retirar esse gene do mercado após o plantio. Não há possibilidade de “recall” dessa tecnologia”.

Economia

O mercado consumidor da maioria dos países rejeita o consumo de alimentos geneticamente modificados, o que pode prejudicar a exportação. Somente os Estados Unidos liberaram a comercialização do arroz transgênico, mas após um caso de contaminação de outras lavouras devido a um “vazamento” da plantação de testes da Bayer, os produtores estão cautelosos e se negam a adquirir as sementes da variedade de arroz modificado.

As principais empresas que comercializam o cereal no Brasil – Camil, Yoki e Josapar (empresa responsável pela marca Tio João) –, declararam em cartas publicadas no site do Greenpeace  que não compram ou vendem em nenhuma hipótese arroz geneticamente modificado, bem como não financiam pesquisas ou eventos relacionados a Organismos Geneticamente Modificados (OGMs). As três brasileiras e outras empresas de diversos países declaram acreditar que o consumidor não está seguro com relação à biotecnologia utilizada no arroz.

O vice-presidente da Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), Eduardo Riedel, afirma que, apesar da adoção de produção de transgênicos estar em contínuo aumento, ela é apenas uma ferramenta a mais para auxiliar na produtividade do agricultor. “É preciso conhecer. Não dá pra generalizar e dizer se é bom ou ruim, que um é melhor que o outro. Mas [a transgenia] é uma realidade na agricultura mundial que pode reduzir o custo, a agressão ao meio ambiente e o uso de defensivos”, ressalta.

O gerente de tecnologia da Bayer, André Abreu, defende os benefícios econômicos e ambientais da variedade transgênica. Segundo ele, o arroz LL62 reduz os resíduos no solo e não contamina a água usada para irrigar o arroz. “Seria um grande avanço para usar em áreas irrigadas pela degradabilidade  do produto”, disse. “Mas só vamos disponibilizar quando os produtores acharem importante”, disse.

Posicionamento

Apesar da CTNBio exigir das empresas que pleiteiam liberação de um novo evento um projeto de pesquisa indicando se o cultivo é prejudicial ou não à saúde do consumidor e ao meio ambiente, entidades de defesa do consumidor questionam até que ponto a Bayer tem se preocupado com os efeitos do arroz transgênico na saúde do consumidor.

O herbicida glufosinato de amônio é uma substância nociva ao organismo humano e, apesar da necessidade, não há relatórios que determinem o grau de toxicidade da planta ou da semente.

Para Andréa Salazar, representante do Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC), as informações apresentadas pela Bayer são insuficientes. “Fica evidente a deficiência e a precariedade das informações apresentadas pelas empresas quando entram com pedido de liberação; há um espectro de avaliação de risco muito limitado, tanto no aspecto da saúde como de meio ambiente”, pontua Salazar.

De acordo com Denis Lima, gerente de regulamentação da Bayer, e com informações de relatórios presentes no site da AG Bios Company, empresa norte-americana responsável pela análise de organismos geneticamente modificados, o arroz da Bayer não tem efeitos alergênicos e nenhum risco de intoxicação alimentar. Foram realizados testes com a proteína PAT, que foi inserida no evento LLRice62, e não houve alterações nas simulações da digestão humana e na alimentação de animais.

Malefícios aos humanos

Porém, o questionamento feito pelo Greenpeace sobre os efeitos na saúde humana não é somente com relação à proteína adicionada ao arroz, mas também ao possível aumento da utilização de herbicidas nas lavouras, o que seria mais prejudical à saúde humana.

O Glufosinato de Amônio pode ser responsável por alterações no sistema nervoso, tremores, convulsões e reações alérgicas, além da permanência residual da substância no fígado, rins e no leite dos animais.

De acordo com o site do Greenpeace, estudos independentes mostram ainda que o glufosinato de amônio causa a morte de células nervosas do cérebro.

Para os pesquisadores Rubens Onofre Nodari e Miguel Pedro Guerra, do Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal de Santa Catarina, os genes de resistência a antibióticos utilizados nos OGM’s oferecem risco à saúde, por haver a possibilidade de contaminação.

Em artigo publicado na Revista de Nutrição, disponível no site da Scielo Brasil, os pesquisadores afirmam que “os genes de resistência a antibióticos inseridos em plantas transgênicas poderão ser transferidos para bactérias humanas, constituindo-se um risco a ser considerado”. Por isso, defendem que devem ser feitos estudos toxicológicos e nutricionais de longa duração, que não foram realizados em nenhum outro país. O objetivo seria evitar conseqüências danosas no caso da aprovação apressada de um produto.

Para Nodari e Guerra, como o gene alterado confere novas características pouco avaliadas quanto ao seus impactos, “ainda não foi gerada uma base de conhecimento suficiente e adequado para abordar corretamente o assunto. Contudo, existe a experiência com os agroquímicos liberados a partir da Segunda Guerra Mundial para uso sem a realização de testes adequados: só posteriormente alguns dos efeitos nefastos causados por eles seriam conhecidos”.

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