
Relato: O que estamos fazendo com a água do planeta?03/08/2009 às 08:15![]() Lagoa Itatiaia - Campo Grande/MS Adriane Mascaro Fim de tarde. Saio de casa para mais um dia de caminhada, e nada melhor do que o contato com a natureza para aliviar a correria do dia-a-dia. O local escolhido é a Lagoa Itatiaia, localizada no bairro Tiradentes, na cidade de Campo Grande-MS, onde moro. No caminho de casa até a lagoa, a paisagem quase não muda. Casas, árvores, pássaros… uma pequena chácara, o carrinho de garapa. Tudo como sempre. É raro quando algo inusitado me chama a atenção. Mas esse dia foi diferente. Logo na chegada à lagoa, deparei-me com uma placa branca, escrito em vermelho e preto: “Proibido pescar. Água contaminada”. Que era proibida a pescaria no local, isso eu sabia, mas que a água estaria contaminada, isso me deixou chocada. E as pessoas continuavam caminhando naturalmente… o que poderiam fazer? Misturei-me a elas, afinal, tinha ido ao local para fazer a minha caminhada diária e relaxar. Como relaxar? Por mais que eu tentasse, aquela frase não saia do meu pensamento “Lagoa contaminada, lagoa contaminada”. Só conseguia pensar no seguinte: “O que estamos fazendo com a água do planeta?” E será que as pessoas estavam se dando conta de que, se realmente aquela água estivesse contaminada, isso afetaria, e muito, a vida delas? Parecia que não. Resolvi investigar. Voltei no outro dia, mas não para caminhar. Fui para fotografar, sentir o ambiente e conversar com as pessoas. Eram umas três horas da tarde. O sol estava fervendo. Achei que naquele horário não encontraria ninguém. Engano meu. Sentadas em uma sombra, tomando tereré, estavam Eliane, Ana Carla e Laurinete, todas moradoras ali da região. Resolvi chegar perto, e a primeira coisa que eu disse foi: “Vocês sabiam que a lagoa está contaminada?” elas riram. “A lagoa não esta contaminada não. Essa placa é para as pessoas não pescarem”, disse uma delas. Isso não tinha passado pela minha cabeça. “Mas quem colocaria aquela placa ali?” Pensei. Depois de uma boa conversa, resolvi trocar uma idéia com guarda que cuida da lagoa. No caminho resolvi tirar algumas fotos do local. Tinha muito lixo. Catei alguns. Por incrível que pareça, flagrei uma cena interessante. Pensei, “tenho que conseguir tirar uma foto”. Logo adiante, próximo ao grande peixe monumental que marca a paisagem da Itatiaia, vi três garotos pescando. Eu tinha que ir conversar com eles, afinal, teoricamente, é proibido pescar ali, e, mesmo que agora com algumas dúvidas, a água poderia estar contaminada. A deixa para eu puxar conversa foi um chinelinho de criança que achei no chão. Peguei-o e me aproximei. “É de algum de vocês?” eles riram, afinal, já eram pré-adolescentes e aquele era um chinelo de “criancinha”. Joguei de lado e fiquei observando. Logo um deles pegou um. “Posso tirar uma foto?”, perguntei. “Tira ai”, respondeu-me. A oportunidade foi boa. Já tinha o aval para fotografar. E, é claro, aproveitei para conversar um pouco. “Vocês sabiam que a lagoa está contaminada?” “Que nada. Essa lagoa não é contaminada não. Eles só falam isso pros moleques não pescá” “Sério? E vocês pescam e depois comem esses peixes?” “A gente pesca aqui, mas nem vira comer esses peixes não. A gente joga de volta na lagoa.” Realmente, era o que eles estavam fazendo. Resolvi sentar um pouquinho na sombra do coqueiro e fiquei tirando umas fotos. Todos os peixes que eles pegavam faziam questão de me mostrar. “Vou ali na guarita conversar com o guarda” “Se ele não estiver dormindo!” Comecei a rir e fui. Chegando lá, bati na porta. Ele saiu. “Estava descansando?” “Não, não” “Então, eu queria conversar um pouquinho com o Senhor sobre a lagoa. O Senhor viu aquela placa dizendo que ela está contaminada?” “Vixi, o lençol freático aqui já deve estar tudo contaminado por causa das fossas das casas. Tem dias que fica um mau cheiro… Uma coisa eu falo para as pessoas, se vocês quiserem, pode pescar, mas depois se passar mal por causa da água da lagoa estar contaminada, o problema é de vocês. Sem interrupções, deixei que ele falasse. “Quando chove as fossas das casas entopem e vai tudo para a lagoa. Quem entende o mínimo a respeito dessas coisas sabe que aqui o solo está contaminado e a lagoa também”. Puxa vida, pensei, cada um diz uma coisa. A única resposta segura viria certamente de algum laboratório que fizesse a análise da água. Foi ai que parti para uma análise, ou melhor, uma investigação para saber o que realmente estaria acontecendo. Para isso, compartilhei a idéia de fazer uma cobertura desse caso com meu grupo da faculdade da disciplina de Jornalismo Cientifico. Meu grupo topou o desafio, e estes são alguns resultados do trabalho. Foto: Gerson Ferracini |