Ciência e Notícia

Universidade Federal de MS

Por esgoto abaixo

03/08/2009 às 08:11

Esgoto

Graziela Reis

Um dia desses, sem nada para fazer, resolvi passear e conhecer de perto minha “casa”, a minha Cidade Morena, a cidade de Campo Grande-MS. No aconchego do meu lar, escondida na dimensão de quatro paredes e com os olhos fixos atrás da tela do computador, pensei que estava livre de todos os problemas, livre do mau cheiro da rua, livre de insetos, de lixo, de doenças, de porcarias e de tudo que fosse descartado. É claro! Minha roupa estava limpa, minha comida no prato, minha água no copo e meu nariz, ainda estava no lugar.

Pensei ignorantemente que o mundo girasse ao meu redor, que o alimento de cada dia simplesmente surgisse no prato, que a água de beber, tomar banho, escovar os dentes e lavar o cachorro aparecesse, como num passe de mágica, e viesse até mim sem grandes dificuldades para suprir as minhas necessidades essenciais e que quando eu não necessitasse mais dessa água, descartaria no meio ambiente, sem nenhum problema, e a natureza que se virasse para torna-lá potável e devolvê-la saborosa ao meu copo. Meu tão grande planeta cabia dentro de um copo.

Fora do espaço que me limita enxergar por entre as quatro paredes do meu quarto, posso ver as aves cortando o céu azul e os animais livres em parques verdes. Reduto histórico de divisionistas entre o sul e o norte, Campo Grande foi planejada em meio a uma vasta área verde, com ruas e avenidas largas. Fundada há mais de 100 anos por colonizadores mineiros, que vieram aproveitar os campos de pastagens nativas e as águas cristalinas da região dos cerrados, a Capital do Mato Grosso do Sul se apresenta relativamente arborizada e com diversos jardins por entre as suas vias. Assim diz o hino: “Mato Grosso do Sul, Campo Grande e Brasil, eis a tríade sagrada”. Exemplo de potencial e riqueza da nossa Morena é o aqüífero Guarani que passa bem aqui embaixo dos nossos olfatos.

Resultado do passeio pelas áreas verdes da cidade, surgiu-me compreensível indignação. Em meio a tanto verde, à imensa beleza e à significativa riqueza que a Capital possui, como pode ainda existir a dengue, a malária, a poliomielite, a hepatite tipo A, a giardíase, a febre amarela, a cólera e tantas outras enfermidades fruto da ausência de redes de esgoto, fruto do descaso e da inércia populacional?

É sabido, pelo menos deveria ser de conhecimento geral de todos que o esgoto não coletado corretamente contamina os corpos d’água e o solo, criando um ambiente propício à propagação de microorganismos patogênicos que, por sua vez, contaminam os córregos de onde a água é captada para consumo nas residências.

A coleta, o tratamento e a disposição ambientalmente adequada do esgoto sanitário são fundamentais para a melhoria do quadro de saúde da população. Vale destacar que segundo a Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), os investimentos em saneamento têm um efeito direto na redução dos gastos públicos com serviços de saúde. Para cada R$ 1,00 investido no setor de saneamento economiza-se R$ 4,00 na área de medicina curativa.

É inacreditável, mas apenas 59% de toda a cidade possui rede de esgoto, os outros 41% ainda mantém as fossas sépticas que podem ser poderosas fontes de contaminação de nascentes, córregos, lagoas, etc.

Mas o que mais me deixa com a pulga atrás da orelha é ter que fazer de uma humanidade, na qual os gastos com o telefone celular, por exemplo, superem os investimentos em tratamento de água e esgoto: fonte primária de subsistência. Para muitos de nós, o mais importante ainda é o que menos importa!

Oh! que terra vermelha ditosa era meu lar antes do homem dominar!. Bons tempos de progresso eram aqueles, nos quais as revitalizações não cobriam de concreto o verde do chão e a chuva não mandava a sujeira do asfalto para as águas de córregos, rios, lagos e lagoas que hoje servem apenas como um cenário ‘sem vida’ nos centros urbanos.

Fonte da Foto: www.botucatu.com.br/2009/images/stories/esgoto.jpg

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