Ciência e Notícia

Universidade Federal de MS

Idosos e o sexo

26/10/2009 às 09:23

Pesquisa revela que eles sentem necessidade do sexo, mas que o preconceito ainda faz com que deixem de praticar

Idoso beija idosa no rosto


Bárbara Ferragini

Nas últimas décadas, tem sido verificado um grande aumento da população de idosos em todo o mundo. No Brasil, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2007, essa parcela já somava cerca de 7 milhões de pessoas com idade igual ou acima de 65 anos.

Os avanços na medicina, os cuidados de prevenção e educação médica contribuíram para aumentar a expectativa de vida. Essas pessoas, que agora vivem mais, também querem ter melhor qualidade de vida, principalmente quando o assunto é prazer. Entretanto, nem sempre este desejo se torna possível.

De acordo com a psicóloga Vera Brun, especialista em sexo, “a terceira idade” pode ter uma vida sexual ativa e o ato sexual pode se construir em uma experiência sensual e prazerosa. “Os idosos têm consciência de que não são mais como eram na juventude, mas o sexo pode ser prazeroso em todas as etapas da vida, pois uma sexualidade bem resolvida envolve afetividade, prazer e emoção”, explica.

Com a evolução da Ciência, foram colocadas no mercado, várias alternativas para resolver os problemas de ordem orgânica que impedem a prática sexual dos idosos. É o caso dos estimulantes, dentre os quais, o mais conhecido é o viagra. No entanto, embora a tecnologia tenha contribuído para o prolongamento da vida sexual, ainda há fatores que atrapalham a continuidade dessa prática por essa parcela da população, dentre eles a religião, o preconceito, a família, o silêncio dos médicos e o medo.

Discriminação

A pesquisadora e assistente social, Marilu Catusso, realizou em 2005, em seu trabalho de mestrado, pesquisa com idosos do município de Palmas (PR), pertencentes ao grupo de Convivência. O estudo consistiu em pontuar os fatores sociais que interferem na sexualidade das pessoas da “terceira idade”. O que se observou foi que a família influencia negativamente na sexualidade dos idosos e que o grupo de convivência é importante, pois estimula o direito de relacionar-se com outrem.

Catusso explica que ainda existe uma falsa idéia de que eles não tem desejo ou vida sexual: “As pessoas acham feio, negam-se a aceitar que o idoso possa querer namorar. Esquecem que a sexualidade não é só genitalidade, existe também uma afetividade que é essencial ao ser humano”, afirma.

A pesquisa também revelou que a discriminação vem de todos os lados. Na própria família, com filhos e netos fazendo comentários e piadas constrangedoras; pela mídia, que valoriza apenas a beleza da juventude; pelos amigos e vizinhos, mal informados, deprimidos e desinteressados; pela religião, quase sempre muito conservadora e por toda a sociedade em geral.

Experiência própria

O aposentado Antonio Souza, 67 anos, conta que após a morte da esposa, teve depressão e passou 5 anos sozinho. Os filhos sempre moraram com eles, um de 35 anos e o outro de 29. O fato de dividir a casa com os filhos, também era um impedimento para a vida sexual. “A gente até queria namorar, mas não nos sentíamos à vontade”, lamenta.

Ele sentiu na pele o preconceito dos filhos e colegas próximos quando resolveu freqüentar um grupo de convivência, onde logo arrumou uma parceira. “As pessoas nos vêem como inúteis e incapazes. Mas a gente pode voltar a ter uma rotina mais alegre, sair, freqüentar bailes, fazer atividade física. Só porque sou idoso não posso mais namorar?”, questiona

Hoje, ele se diz feliz e conta que voltou a se relacionar sexualmente. “Para nós, o sexo não é igual quando éramos jovens, é mais carinho, afeto. Mas mesmo assim, a gente tem vontade, diz até que faz bem, né”, comenta.

De acordo com especialistas, nessa fase da vida, a intimidade e o sexo acontecem juntos, um se torna o complemento do outro. “A atividade sexual deixa de ter conotação erótica, como na juventude e se torna mais amorosa”, comenta a sexóloga Vera Brun.

Qualidade de vida

Envelhecer não significa enfraquecer, ficar triste ou assexuado, embora, em nossa cultura, diversos mitos e atitudes sociais sejam atribuídos às pessoas com idade avançada, principalmente os relacionados à sexualidade, o que dificulta a manifestação desta área em suas vidas.

O conceito de qualidade de vida é complexo e envolve dimensões como bem-estar físico, familiar e emocional, habilidade funcional, espiritualidade, função social, sexualidade e função ocupacional, que, quando integradas, mantêm o individuo em equilíbrio consigo mesmo e com o mundo ao seu redor.

“A velhice não implica um estagnar e que a sexualidade pode continuar viva nessas pessoas”, afirma Catusso. Nesse sentido, a sexualidade é reconhecida como um aspecto importante da saúde e, se for vivida satisfatoriamente, é fonte de equilíbrio e harmonia para a pessoa, favorecendo uma atitude positiva em relação a si mesmo e aos outros.  “O idoso não pode se deixar levar pelo medo ou preconceito da sociedade, deve aproveitar sua vida e ser feliz”, aconselha Antonio.

Fonte da Foto: http://www.apodi.info/bbc-2008/ativ-sex-idosos.jpg

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