
Um prazer sem idade26/10/2009 às 09:31A população idosa cresce rápido no mundo. Pesquisa revela necessidade de se compreender como ocorrem os relacionamentos e quais os riscos e cuidados
Angela Albuquerque Segundo dados da Organização Mundial da Saúde – OMS, até o ano de 2025, o Brasil será o sexto país em população de idosos. Dados do IBGE 2000 revelam que o Brasil possui cerca de 15 milhões de pessoas nessa faixa etária. É uma fatia da população que tem chamado atenção por mudar o seu modo de vida, tornando-se muito mais ativa cultural, social e economicamente. A qualidade de vida dessas pessoas melhorou muito e isso impulsionou a retomada de atividades exclusiva dos mais jovens. Uma dessas atividades é o sexo. A pesquisa “Rompendo o silêncio: desvelando a sexualidade em idosos” de Marilu Chaves Catusso pesquisou o comportamento sexual dos idosos do município de Palmas (PR), pertencentes ao grupo de Convivência Anos Dourados. Um dos resultados dessa pesquisa foi descobrir que a auto-estima é muito importante no relacionamento entre os idosos, principalmente no processo de reconhecimento físico e social do indivíduo no seu círculo de convivência. Intimidade Outro fator relevante é o da intimidade. A pesquisadora Marilu cita o professor da PUC Mário Erbolato para explicar que o sucesso conjugal na velhice está ligado à intimidade, à companhia e à capacidade de expressar sentimentos verdadeiros um para o outro, numa atmosfera de segurança, carinho e reciprocidade. A pesquisa também chama a atenção para estrutura familiar moderna. 60% dos pesquisados não residem somente com o parceiro e isso dificulta no processo de intimidade, mais difícil ainda é um novo relacionamento. O psicólogo Salvatore Capodieci, citado pela pesquisadora, escreveu que além dos elementos que constituem o psiquismo de um indivíduo existem também de fatores externos presentes na realidade sócio-familiar da pessoa idosa. Helena Costa é dona de casa, casada há 34 anos e mora com o filho do meio e a nora. Ela confirma os dados da pesquisa dizendo que é difícil para os filhos aceitarem que os pais possam ter vida sexual ativa. “Nós temos que nos certificar de que não tem ninguém em casa, é falta de costume tanto deles quanto nossa, isso acaba tirando a intimidade do casal.” Fatores externos Existe ainda a questão religiosa em relação ao sexo. Para os idosos do grupo de convivência pesquisado, sexo não é pecado. No entanto, esse tabu religioso ainda influencia no comportamento de muita gente. Rosalinda Nunes é vizinha de Helena e é viúva. Ela afirma que é muito bem resolvida em relação ao sexo. “Meu marido já se foi e desde então não penso mais nisso. Está na bíblia: sexo é para pessoas casadas que querem ter filhos, eu já não me enquadro nisso”. Um dos mitos ainda freqüentes e mais citados na pesquisa revela que 80% dos entrevistados acreditam que as pessoas de terceira idade, que manifestam sua sexualidade, ainda são vistas pela sociedade de forma diferente e duvidosa. Talvez por esse motivo ainda exista muita negligência com a seriedade do assunto e a consequente ocorrência de doenças sexuais entre essa faixa etária. Uma prova disso é o resultado da pesquisa “Características da Aids na terceira idade” realizada em um hospital de referência do Estado do Ceará pelas pesquisadoras Vera Lúcia Borges de Araújo (Hospital São José em Doenças Infecciosas), Daniele Mary Silva de Brito (Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará), Marli Terezinha Gimeniz (Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará), Terezinha Almeida Queiroz (Faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual do Ceará) e Clodis Maria Tavares (Universidade de Fortaleza), no período de 1989 a 2004.os anos004. Perfil em números Nesse período, obteve-se notificação de 107 casos, entre eles a faixa etária mais comprometida foi a de 60 a 69 anos (77,5%). O crescimento do número de infecções por HIV/AIDS em pessoas com 60 anos ou mais resulta na mais nova característica da epidemia. Atribuem-se dois fatores como responsáveis pelo aumento de casos de AIDS em idades mais avançadas. O primeiro deve-se àqueles idosos que possuem, entre outros fatores, maiores recursos, o que contribui para o acesso aos prazeres e serviços disponíveis, permitindo vida sexual mais ativa. O segundo fator deve-se, principalmente, à existência de tabu sobre sexualidade na terceira idade. De modo geral, estas pessoas estão menos informadas sobre o HIV e pouco conscientes de como se protegerem. O levantamento do Ministério da Saúde sobre comportamento sexual do brasileiro, feito entre os meses de setembro e novembro de 2008, com homens e mulheres entre 15 e 64 anos, revelou que entre os entrevistados na faixa etária dos 50 aos 64, apenas 10,5% usaram preservativo em todas as relações nos últimos 12 meses. Jovem usa mais… E quanto mais jovem, maior a probabilidade de uso de preservativo (a cada ano, diminui 1% a chance de o indivíduo usar este recurso). A dona de casa Helena diz que por ser casada não usa e que não se considera uma pessoa bem informada sobre o assunto. Segundo Gisele Maria Brandão de Freitas, uma das responsáveis pelas coordenações de DST/AIDS do Estado de MS e do município de Campo Grande, isso tem provocado um aumento nos casos de AIDS entre pessoas idosas. “É enganoso pensar que as pessoas idosas não fazem sexo a despeito de poucas campanhas de prevenção dirigidas a essa população”, diz ela. Displicência profissional A desinformação também atinge os profissionais da saúde tanto na prevenção quanto no tratamento dessas pessoas. Os profissionais ainda são reticentes e raramente indagam sobre a vida sexual do idoso, nem suspeitam da possibilidade da contaminação pelo HIV e retardam o diagnóstico. Embora sintomas como desidratação, fraqueza, anorexia e febre sejam causas freqüentes de internação em idosos, podem levar os médicos a fazerem um diagnóstico incompleto. Conforme a pesquisa feita no Ceará, o número de casos aumentou nos estratos de menor escolaridade (44,0% apresentam baixa ou nenhuma escolaridade). Isso remete à condição de pior cobertura dos sistemas de vigilância e de assistência médica entre os pobres. Gisele Maria informa sobre o problema em Campo Grande: O número de casos de AIDS notificados até dezembro de 2008 foi de 2.693 casos acumulados, entre eles 87 são de pessoas com idade acima de 60 anos. Fonte da Foto: http://www.vicosa.mg.gov.br/images/noticias/1253194528.jpg |