
A Mulher no Futebol02/11/2009 às 07:15Entrevista com Caroline Silva de Oliveira Aurélio Marques Em entrevista ao Núcleo de Jornalismo Científico, a pesquisadora fala um pouco mais do trabalho que lhe rendeu premiação em Brasília. Como as questões de gênero aparecem no seu trabalho? As questões de gênero são o enfoque principal, que trata das desigualdades entre homens e mulheres em diferentes âmbitos da sociedade. Falando do esporte, tem essas diferenças. No futebol, principalmente, tinha e ainda tem essa diferença de gênero. O que seria a questão de gênero em si: é falar que o futebol é só para homens, que só macho pode jogar, que jogador homossexual não pode, ainda que ele seja homem, não pode jogar, tem que ter força e virilidade, e a mulher muito menos, que ela só deve ficar em casa, cuidar do homem, lavar roupa, lava louça e cuidar da casa. Mas essas questões foram mudando, por que não existe isso na sociedade, não de forma tão absurda. O movimento gay e o feminista foram correlacionados, a batalha para ganhar reconhecimento foi muito difícil. Já as relações homoafetivas são as relações entre homem e homem e mulher e mulher. Eu falei rapidamente no trabalho que uma das formas de preconceito no futebol feminino é a questão de a mulher ser lésbica. Porque ela corta o cabelo curtinho, ou ela tem um comportamento mais masculino, é vista pela sociedade como sapatão. Você também discute estereótipo e preconceito ao longo do seu estudo. De que forma essas questões são abordados na pesquisa? A educação física desde a pré-escola traz estereótipos nos alunos e se isso não for trabalhado de maneira correta, o jovem cresce e fica adulto com esse preconceito. Então o professor de educação física tem que estudar essas questões de gênero que é um tema novo que está sendo abordado agora na mídia, nas escolas e até em congressos está sendo mais abordado, para que esses professores saibam como lidar com isso. Na minha aula de educação física foi assim, ia para quadra, professor jogava a bola para turma e falava: os meninos podem jogar futebol e as meninas vão jogar vôlei, pular corda. Se uma menina quisesse jogar futebol tinha que enfrentar os meninos que às vezes não a deixavam jogar. Se quisesse mesmo, ela jogava, mas talvez nem encostasse na bola. O preconceito dos meninos vai crescendo, quando se torna adulto fica pior, se torna uma discriminação que é o ato negativo contra a pessoa. As jogadoras pesquisadas apresentaram um perfil…. Essa parte foi a análise do resultado, eu coletei os dados, fui separando e analisando questionário por questionário, cada questão, e relacionando com a teoria. Destaquei o perfil de cada jogadora, a media de idade, escolaridade, profissão e outras questões como elas responderam. Percebi que nas falas delas tinha muito preconceito, elas sentem que tem o preconceito, e nas respostas o preconceito partiu mais dos homens, algumas falaram que jogam campeonato até hoje e da arquibancada chamam de sapatão, gritam mesmo. Na questão da família, havia uma que questionava como era o apoio da família, se incentivava ou não, e a maioria respondeu que sim, que recebem incentivos, outras responderam que jogam escondido, por que se o pai souber que ela joga futebol seria expulsa de casa. Outros, que não tinha nada a ver, desde que não interferisse nos estudos. Quais suas conclusões quando o assunto tratado é “mulher no futebol”? A idéia inicial era fazer um artigo, uma publicação em revista, só que foi ganhando corpo e surgiu a idéia de fazer a monografia baseada nessa pesquisa foi e surgiu o concurso no qual eu enviei o artigo para participar. Conforme a revisão bibliográfica eu falo um pouco da mulher no esporte e principalmente no futebol. A inserção dela nesse meio foi bastante complicada, demorou muito tempo e até hoje ainda é vista com muito preconceito. Aqui no Brasil esse preconceito já está sendo quebrado, mas mundo afora é muito difícil à participação feminina no futebol. Antigamente as leis proibiam as mulheres de praticar certos esportes violentos inclusive futebol, e com o tempo foi mudando, a medicina evoluindo e foi entrando em conflito com os aspectos sociais e permitindo que a mulher participasse mais da sociedade. O futsal foi junto com o futebol, a participação foi concomitante. Hoje a seleção brasileira feminina de futebol, tem mais destaque que a masculina, por que ela conseguiu ganhar mais títulos, teve ascensão da jogadora Marta que é brasileira, melhor do mundo, teve destaque no mundo inteiro, joga fora do Brasil e serve de símbolo para outras meninas que gostam de futebol, que pretendem chegar a um nível profissional. A questão da discriminação parte só dos homens ou acontece também entre as próprias jogadoras? Foi uma discussão que surgiu. Os professores sentiram que teve muito por parte do próprio grupo. No grupo que entrevistei algumas eram homossexuais assumidas ou não eram, mas não tinha preconceito nenhum e outras eram totalmente preconceituosas e colocavam coisas do tipo: se a menina é homossexual e vir conversar comigo eu não vou gostar. Vou achar ruim. Vou pedir para sair do time. Tinha isso muito forte, principalmente as mais novas. Outras diziam: nos campeonatos, as jogadoras de vôlei, de handball não querem ir ao vestiário com a gente por que acham que vamos atacar elas. Foi o que mais chamou atenção, por que nós não esperávamos. Como foi o processo para levantar o perfil das atletas? Eu elaborei um questionário com 18 questões, abertas e fechadas, mas eu não tive contato direto com elas, foi uma forma que encontrei para não ficarem inibidas nas respostas. São perfis diferentes, algumas jogavam pelo time da Universidade, algumas jogavam somente por lazer, outras não jogavam mais, outras competiam em alto nível, foi bem variado e a maioria de Campo Grande mesmo. Algumas eu conhecia por que jogo futebol também, por isso participaram sem problema nenhum. Falando agora da premiação, como aconteceu? O prêmio é justamente para falar das mulheres, que hoje estão equiparadas a um homem, com direitos iguais, como está na Constituição, por exemplo, e tem várias formas de falar que a mulher ainda está conquistando esse espaço. Então por isso eu mandei o trabalho em novembro do ano passado (2008) e analisaram, a banca composta por professores doutores, políticos de Brasília que trabalham com as políticas sobre as mulheres, todos leram o trabalho. O concurso era dividido em categorias, eu mandei na categoria estudante de graduação, e em março recebi um e-mail dizendo que tinha sido aprovada. Minha monografia tinha 50 páginas. Para mandá-la tinha que ser 20, foi bem difícil reduzi-la, por que perde conteúdo, mas ficou bem legal. A premiação foi em Brasília, agora em junho, teve a participação da ministra da Ciência e Tecnologia que elogiou, disse que leu todo trabalho. O meu era o único na área de esporte. Você pretende dar continuidade à pesquisa? Essa pesquisa se encerrou, a idéia agora seria fazer talvez em nível nacional, abranger os estados ou tratar mais da questão da homofobia no esporte em geral, não só no futebol. Qual a importância do seu trabalho para o combate desse preconceito? Primeiro espero que contribua para os estudantes de educação física na área de esporte, que vejam que isso é um tema que não tratado na faculdade, na nossa grade curricular não tem nada falando sobre isso, um professor ou outro que fala e espero que esse trabalho sirva de estímulo para outros estudantes se interessarem e pesquisarem. Os resultados que eu concluí na pesquisa podem servir de auxílio nas políticas públicas e como ganhou o prêmio pode ser incluído em uma futura legislação falando dos direitos das mulheres, por questão do preconceito que deve ser punido. Fonte da Foto: http://pan2007.globo.com/ESP/Home/foto/0,,11195053-EX,00.jpg |