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Universidade Federal de MS

Anvisa quer regulamentação do uso de bebidas isotônicas

05/10/2009 às 07:10

Consumida sem critérios, esse tipo de bebida tem nove vezes mais sal que um refrigerante

Para futebol beba isotônicos

Camila Valderrama
Caroline de Paula
Fernanda Pereira
Jefferson Baicere

No dia 13 de novembro de 2008 a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) propôs, através da Consulta Pública número 60, a criação de uma nova categoria de alimentos. Esse grupo refere-se aqueles especiais para atletas e, segundo a Agência, estão inclusos os isotônicos. A determinação veio depois que a Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e Bebidas não Alcoólicas divulgou que as vendas de isotônicos tiveram um aumento de 60% nos últimos anos.

Outro argumento é que o consumo de isotônicos é feito de maneira inadequada. Em alguns casos, a necessidade de reposição de nutrientes proporcionada pelo produto não é recomendada para a atividade física que a pessoa pratica.

A Anvisa sugere que a informação no rótulo seja alterado de “alimento para praticantes de atividade física” para “alimento para atletas” e propõe ainda que a rotulagem contenha a mensagem “O consumo deste produto nas provas de longa duração deve obedecer a orientação de nutricionista ou médico, pois o excesso pode ser prejudicial à saúde do atleta”.

Perda natural

Toda atividade física faz com que o corpo perca água, mas nem sempre é necessário que a reposição seja feita com isotônicos. A diferença é que às vezes o corpo está desidratado e, nesses casos, é recomendada a ingestão de isotônicos.

Essas bebidas são soluções formadas a partir de concentrações variadas de sódio e cloreto associadas a pequenas quantidades de carboidratos. Elas são capazes de hidratar, repondo todas as perdas, além do efeito benéfico do suporte de carboidrato oferecido aos músculos em atividade extenuante.

Somente em casos extremos, como o de atletas em competição, é necessária a reposição de água e nutrientes no corpo com eletrólitos, como o sódio e o potássio.

Evolução científica

A evolução do conhecimento científico sobre nutrição indica que esses alimentos devem ser consumidos apenas por pessoas que pratiquem exercício físico de alta intensidade e com objetivo de rendimento esportivo ou de competição. Este não é caso de um freqüentador de academia ou de uma pessoa que realiza uma caminhada.

A diretora da Anvisa, Maria Cecília Brito, faz um alerta que “as pessoas que praticam atividade física para promoção da saúde, recreação ou estética, não devem consumir esse tipo de alimento, sem a orientação de um profissional competente. Uma dieta balanceada e diversificada é suficiente e recomendável para atender as necessidades nutricionais destes indivíduos”.

Já a endocrinologista Ellen Simone Paiva, diretora do Centro Integrado de Terapia Nutricional, defende que somente com água muitas vezes um indivíduo, que pratique uma atividade com grande desgaste, não conseguirá repor todos os sais minerais e líquidos perdidos durante a atividade.

Paiva explica ainda que “nesses casos a reposição de água potável, sem o componente eletrolítico que existe nos isotônicos, deixa o organismo privado de substâncias importantes e altera o equilíbrio corporal”.

Sinal vermelho

Os riscos inerentes ao consumo indiscriminado dos isotônicos estão relacionados ao seu valor calórico, ao seu conteúdo em açúcar e ao sódio. As calorias dessas bebidas podem comprometer a dieta de pessoas com sobrepeso ou obesidade, pois um frasco de 350 ml pode conter de 80 a 100 calorias. O seu teor em açúcar também pode elevar a glicemia dos diabéticos. Exemplificando, o isotônico tem nove vezes mais sal que um refrigerante e 3 mil vezes mais que um hidrante infantil.

Segundo especialistas, ao praticar qualquer atividade física o melhor é se antecipar à sede. A pessoa deve começar bebendo um copo de água 20 minutos antes de começar a atividade e repetir dose a cada 15 minutos.

A equipe de reportagem entrou em contato com a Ambev, fabricante da bebida Gatorade, para saber o posicionamento da empresa em relação à consulta da Anvisa. Porém, a assessoria de imprensa da empresa afirmou que a Ambev não vai se pronunciar sobre o assunto.

Consulta Pública

Para a consulta pública, inicialmente seriam aceitas propostas dos especialistas, fabricantes e da população durante o período de 60 dias. Entretanto, a diretoria da Agência decidiu prorrogar o prazo para que houvesse maior participação dos interessados e as contribuições foram aceitas até o dia 16 de março.

Agora a Agência Nacional de Vigilância Sanitária vai analisar todas as contribuições recebidas e reescrever o texto inicial. Logo em seguida será realizada uma audiência pública com todos os interessados para que o novo texto seja rediscutido e reescrito, se necessário.

A etapa final é a aprovação da diretoria-geral da Anvisa e a publicação no Diário Oficial da União. As decisões passam a vigorar como lei somente após a publicação.

Na opinião dos profissionais

Dados foram revelados em uma pesquisa inédita do American College of Sports Medicine (Faculdade Americana de Medicina Esportiva), que reúne mais de 20 mil profissionais de medicina esportiva. Segundo a pesquisa, há muitas pessoas consumindo isotônicos após praticarem atividades físicas leves como alongamento, enquanto outras se exercitam desidratadas.

“A perda de água durante a transpiração devida a exercício físico pode levar a desidratação,” disse em entrevista ao site da Instituição, o presidente da ACSM, W. Larry Kennedy. O presidente enfatizou que até mesmo uma pequena quantidade de desidratação pode aumentar a pressão cardiovascular, diminuindo a performance do atleta e causando algum problema de coração. O fator ratifica a necessidade da hidratação constante durante os exercícios e, no caso de atletas de alto rendimento, acompanhamento médico e especializado.

Há também quem veja exagero na discussão proposta pela Anvisa. O especialista em nutrição esportiva e professor da Universidade Federal de Viçosa, João Carlos Bouzas Marins, disse em entrevista à revista Época que existe alarmismo em torno do caso. “Ninguém se torna hipertenso por tomar um isotônico sem necessidade. O problema é quando um sujeito sedentário consome essa bebida como se fosse água”.

Os isotônicos são usados para repor substâncias que o corpo já perdeu, no caso de uma atividade física ou até mesmo para tratar uma desidratação em caso de recomendação médica. “O isotônico é uma fonte de calorias, quase equivalente a uma bebida adoçada com açúcar, como um refrigerante. Quem bebe pode ganhar peso”, diz Márcio Mancini, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

Durante as atividades físicas, a necessidade de nutrientes e líquidos pode variar de acordo com a intensidade e duração do evento, assim como a temperatura ambiente e a umidade. Ao praticar caminhadas, por exemplo, não há necessidade de ingerir um isotônico, que pode ser substituído por água de coco, considerado isotônico natural e que não representa riscos à saúde nem à balança.

Isotônico da natureza

A água de coco é considerada uma bebida saudável. Dentre suas qualidades, uma delas é que pode ser um isotônico da natureza. Esta bebida tem poder hidratante, devido à presença de sódio, que traz benefícios ao sistema digestivo. Por ser um produto natural e que contém nutrientes, a bebida é colocada entre os produtos saudáveis e indicados para quem quer uma dieta equilibrada.

Mesmo a água de coco industrializada, comercializada em caixinhas, é mais saudável, por ser um produto envasado pelo sistema U.H.T. (Ultra High Temperature), que consiste em um tratamento térmico à temperatura elevada, por poucos segundos, antes do resfriamento e colocada em uma embalagem asséptica. Isso dispensa o uso de conservantes.

O uso moderado da água de coco deve ser feito por hipertensos, devido ao seu teor de sódio, e por diabéticos, devido à quantidade de carboidratos. Mesmo assim, eles podem consumir um copo por dia, preferencialmente acompanhado de refeição. Quando a água de coco é ingerida sozinha ela produz um impacto maior dos açúcares no organismo.

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