Ciência e Notícia

Universidade Federal de MS

Como vai seu sono?

21/09/2009 às 07:20

O médico Marcílio Delmondes, neurologista formado pela Universidade Estadual Paulista e Especialista em Medicina do Sono pela Sociedade Brasileira de Sono, em entrevista ao Núcleo de Jornalismo Científico, explica a importância de uma boa noite de sono e quais as principais patologias que o indivíduo pode desenvolver se não tiver um sono saudável.

Mulher dorme abraçada ao travesseiro

Bárbara Ferrgini e Ângela Albuquerque

NJC: Qual é a função do sono?

MD: O sono tem, resumidamente, duas funções principais: a de conservação e de armazenamento de energia (durante o dia você tem um desgaste mental e é justamente durante o sono que vai recuperar) e a memória, ou seja, o momento que você grava, sedimenta a memória.

NJC: O sono é composto por fases?

MD: Sim. O sono é dividido em duas partes principais: o chamado sono de ondas lentas (sono não – REM), no qual não há sonhos e o chamado sono REM. O sono de ondas lentas é dividido em quatro estágios e é .justamente no 3º e no 4º estágios que o indivíduo vai repor, conservar e armazenar energia. Já na fase REM, onde ocorrem os sonhos, o organismo sedimenta a memória.

(O sono R.E.M., ou rapid eye movement (movimento rápido dos olhos), é a fase do sono na qual ocorrem os sonhos mais vívidos. Durante esta fase, os olhos movem-se rapidamente e a atividade cerebral é similar àquela que se passa nas horas em que se está acordado.
NJC: Qual é a diferença entre os distúrbios do sono e as patologias do sono?

MD: Podemos chamar de distúrbios do sono o sonambulismo, terror noturno, pesadelos, os quais a equipe médica conhece como parassonia, pois são benignos. A Medicina do Sono, que é uma especialidade, diagnosticou em média 87 distúrbios, dentre os quais, estão os citados acima. Geralmente têm relação com a idade e com o amadurecimento completo do cérebro e tendem a desaparecer. Poucos casos persistem após os 20 anos de idade.  Já as doenças do sono, ou dissonias mais comuns são: apnéia do sono e insônia.

NJC: Qual é o perfil do indivíduo propenso a ter os distúrbios do sono?

MD: A insônia afeta mais as pessoas jovens e de meia idade, na grande maioria, do sexo feminino. Já a apnéia do sono é mais comum nos indivíduos com idade acima de 40 anos, com predominância masculina.

NJC: Qual é a patologia relacionada ao sono mais comum?

MD: Dos pacientes consultados, a média é de 30% a 40% de insônia ocasional, 10% a 14% de insônia crônica e apenas 4% dos casos com apnéia de evolução crônica.

NJC: Qual seria a maior causa para a insônia?

MD: São vários fatores que podem causar a insônia, mas o que mais a acarreta é a ansiedade. E esta não se trata com remédios e sim com psicoterapias. Por exemplo, se a pessoa tem depressão, ela pode ter hipersono (dormir demais de dia ou de noite) ou pode ter problemas para dormir, tanto de dia quanto à noite. O quadro depressivo também pode levar à insônia.

NJC: E o ronco, ele pode ser considerado um distúrbio do sono?

MD: O ronco é considerado atualmente como doença. É o início dos chamados distúrbios respiratórios do sono e a apnéia é o extremo, o final dos distúrbios. Mesmo que a pessoa não possua os sintomas da apnéia e apenas o ronco, sabe-se que a qualidade do sono será afetada. Na maioria das vezes, o ronco é o aviso de um problema, ele não é o principal.

NJC: Quais são os exames para diagnosticar as patologias do sono?

MD: Os exames mais utilizados são o de videopolissonografia, teste de manutenção da vigília, monitoramento cardiorespiratório domiciliar e teste das latências múltiplas do sono. Alguns são realizados no período diurno e outros no período noturno, sendo que o paciente dorme na clínica e é monitorado durante o sono, através do aparelho de videopolissonografia. O resultado irá informar se o paciente possui distúrbios do sono e quais são, para que o médico então possa indicar um tratamento específico.

NJC: Estes exames são oferecidos pelo Sistema Único de Saúde?

MD: Infelizmente, no Estado não são. Os exames são feitos através de convênios ou via pagamento particular.

NJC: Quantas horas são necessárias para que se tenha um bom sono?

MD: Sono considerado normal de 4 a 10 horas. O que deve ser observado é a qualidade deste sono, se a pessoa dorme bem e acorda no outro dia se sentindo bem e passa o dia disposto, o tempo de sono foi reparador. Mas a média da população é de 7 a 8 horas de sono por dia. E a pergunta que fica é: este sono foi reparador?

NJC: Como fazer para ter uma boa noite de sono?

MD: O indivíduo deve fazer a boa higiene do sono, fazer uso correto dos medicamentos, tratar as patologias e evitar atividades estimulantes à noite.

NJC: O que seria a higiene do sono?

MD: É uma série de atitudes que o indivíduo deve ter para não sofrer de distúrbios do sono. Por exemplo: o quarto deve ser usado apenas para dormir, não para estudar, trabalhar, assistir filmes. Nunca acabar de jantar ou tomar banho e deitar. O ideal seria manter estas atividades de duas a três horas antes de dormir. Atividades físicas de preferência de manhã ou à tarde. As pessoas confundem, acham que ao praticar um exercício na parte da noite vão dormir mais, quando na verdade, esta atividade estimulante pode atrapalhar o sono.

NJC: A ingestão de estimulantes e cafeínados pode atrapalhar o bom desempenho do sono?

MD: Sim. Isto não é mito. Deve-se evitar o consumo de produtos como café, chá, bebida energética ou estimulante no período noturno e principalmente, antes de dormir. A qualidade do sono diminui muito com o uso de tais produtos.

Fonte da foto: http://saudedofuturo.files.wordpress.com/2007/10/sono.jpg

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