
Não dá mais para usar petróleo29/06/2009 às 07:00![]() Economista Norman Kalmus Bianca Celoto
Em entrevista ao Núcleo de Jornalismo Científico da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, o economista Norman Kalmus fala dos principais impactos econômicos para Mato Grosso do Sul e para o Brasil com a produção dos biocombustíveis, as conseqüências positivas e negativas na produção do etanol a partir da cana-de-açúcar e como a crise econômica pode influenciar no setor.
Como os biocombustíveis influenciam na economia do Estado e do país?
Normann - Os biocombustíveis influenciam pouco ainda, mas vão influenciar muito mais, já que temos a substituição dos combustíveis fósseis pelos biocombustívies, especificamente do etanol da cana-de-açúcar, que é infinitamente melhor em relação a impacto ambiental e custo que os derivados do petróleo. Do ponto de vista da economia ecológica, é preciso considerar que a extração do petróleo é extremamente cara e danosa. Estamos tirando carbono das camadas mais profundas da terra e jogando na atmosfera, gerando um impacto ambiental muito grande. No caso do etanol, continua-se tendo a produção de carbono pela queima, mas é o carbono que já está na superfície. Durante o período de cultivo da cana-de-açúcar, esse carbono é absorvido. Como esse processo de queima já está deixando de ser aplicado, durante o cultivo da cana-de-açúcar há um ganho, uma absorção de carbono, o que gera um equilíbrio favorável neste cultivo. Por que isso é importante para a economia? Porque o aquecimento global vai trazer problemas muito sérios e já está trazendo. Principalmente na agricultura. E como em Mato Grosso do Sul tem-se basicamente agricultura e pecuária, depende de clima. Os impactos disto, em longo prazo, são enormes. Hoje, a nossa economia é praticamente baseada em soja e pecuária. Isso é bastante complicado, porque dependemos do mercado externo. Isso é um ponto desfavorável porque quando cai o mercado externo, há um reflexo dentro do nosso Estado. A cana-de-açúcar vem como mais uma forte alternativa para a criação de uma estrutura de desenvolvimento econômico. Ela não é o remédio para todos os males, porque vai exigir uma estrutura que não temos. Mas, de qualquer maneira, o etanol vai ser um importante produto, uma importante alternativa econômica para o nosso Estado. A cultura de cana vai mudar radicalmente a estrutura econômica de Mato Grosso do Sul, porque vai acrescentar tecnologias e investimentos que a gente não tem.
Quais são os principais produtos que geram energia limpa produzidos em Mato Grosso do Sul?
Normann – O sol deveria ser considerado, que é o mais limpo de todos e nós não aproveitamos. Mas a única coisa que hoje a gente produz com alguma consistência é o etanol de cana-de-açúcar. O que existe de alternativas de biodiesel, com a mamona, por exemplo, ainda tem muito problema tanto de colocação no mercado quanto de produção, porque não tem consistência na produção de matéria prima. O que, com toda certeza, vai poder ser um grande produto para nós é o etanol da mandioca, provavelmente mais viável economicamente que a cana-de-açúcar. Mas basicamente, hoje, a gente pode falar do etanol e do biodiesel da soja e, claro, da necessidade de desenvolver novas alternativas.
Quais são as conseqüências do desenvolvimento do setor canavieiro no Estado?
Normann - A estrutura da cana-de-açúcar exige uma infra-estrutura muito grande. Além disso, existe a necessidade de adaptação de novas culturas, a cana-de-açúcar precisa de giro, ela não pode ser cultivada além de cinco anos. Então o que vai acontecer depois disso? Ao sair, a cana deixa a terra preparada. Então ao substituir pastagens por cana de açúcar estaremos gerando uma pastagem provavelmente melhor ao final destes cinco anos. Isso se não for substituída por mandioca, por exemplo. De qualquer forma estaremos recuperando áreas degradadas pelas pastagens. A outra coisa interessante é que o fato de entrar capital externo aqui faz com que a estrutura de comando mude. Serão empresas vindo de fora, capital vindo de fora, isso significa gente com novas cabeças o que pode dar uma arejada na estrutura de comando do nosso Estado.
Como a crise mundial influencia na produção do etanol no Brasil?
Normann - Diretamente, a crise mundial influencia na diminuição de disponibilidade de capital. Não tem mais dinheiro para ser investido, as empresas tiveram que se rearranjar. Indiretamente, existe a questão do mercado que está muito encolhido neste momento, em função do preço do barril do petróleo, que faz com que a relação de preço seja muito apertada. Na cana-de-açúcar, temos condição de produzir a preços competitivos mesmo que o preço do barril de petróleo esteja a $ 35. Nos Estados Unidos, por exemplo, a produção de etanol a partir do milho acabou por causa do preço do barril de petróleo. Então, neste primeiro momento, os EUA se abrem como mercado potencial para o nosso etanol. Se os EUA deixarem de lado as suas barreiras protecionistas, o mercado de etanol para o Brasil será muito grande. Nós vamos produzir etanol para o maior produtor do mundo.
Quais são as perspectivas futuras para o setor de biocombustíveis?
Normann - Num primeiro momento, o etanol me parece a grande saída. Não dá mais para usar o petróleo. Os carros devem passar a rodar todos com etanol. Mas eu não acredito que esta seja uma alternativa muito duradoura. Nos próximos cinco anos, já teremos pesquisas com células de hidrogênio, os carros poderão ser movidos à água, por exemplo. Tem muita coisa que pode acontecer neste sentido. Mas o biocombustível vai continuar tendo aplicações. E uma das fontes de etanol são as algas. As algas têm uma produção de etanol e biodiesel muito maior do que qualquer coisa que a gente tenha hoje. Mas ainda dependemos de tecnologia. O bonito desta história é que, neste momento, o que vale é o conhecimento, teremos uma tendência de evolução e diversificação de matrizes. |