
Arquitetar a sustentabilidade06/07/2009 às 16:06Como a arquitetura e urbanismo vem aplicando essa idéia ao seu cotidiano
![]() A arquiteta e urbanista Andréa Naguissa explica que nada é 100% sustentável
Pensar sustentabilidade hoje em dia não é apenas uma questão ambiental. Setores como a construção civil estão desenvolvendo e aplicando cada vez mais esse conceito. De acordo com dados da Worldwatch Institute, que é referencia na área de sustentabilidade, a construção de edifícios consome 40% das pedras e areia utilizados no mundo por ano, além de ser responsável por 25% da extração de madeira anualmente. Explorando todo esse universo sustentável, a arquiteta e urbanista, professora da UFMS, Andréa Naguissa Yuba, nos fala um pouco sobre como a sua profissão e essa nova tendência mundial estão relacionadas, incluindo custos e a situação do Brasil no quesito de obras sustentáveis. O que é sustentabilidade dentro da arquitetura? A idéia da arquitetura é aplicar esses conceitos, que são conceitos bem amplos relacionados mais à nossa cultura, nos materiais de construção, nas nossas edificações. Desde o micro que é o uso de um tipo de material para diminuir o consumo de energia, ventilação, iluminação, até chegar no macro, numa abordagem mais urbana que é a parte de transportes, vias de trânsito, a maneira como a gente usa os recursos hídricos. Qual é o contexto histórico de sustentabilidade na área de arquitetura? Acho que a gente começou a ter mais preocupação com a questão de sustentabilidade na construção na década de 90. No começo, ainda tinha muito aquela confusa de movimento hippie, e era tudo na base do protesto, com o tempo, do protesto começou a virar lei e começamos a incorporar isso no cotidiano. Qual é a diferença entre o sustentável e o não sustentável? Não existe aquilo que é sustentável ou aquilo que não é sustentável. A gente está nessa transição, tudo pode ser mais sustentável. Vamos analisar uma casa, a casa ela é feita de vários materiais diferentes, e se você começar a entrar na cadeia de produção de cada material vai reparar que tudo pode ser mudado. Então vamos pegar um tijolo, ele pode ser feito da maneira mais impactante possível usando lenha de madeira do cerrado, mas eu posso produzir o mesmo tijolo usando uma madeira que venha de reflorestamento, já planejado para isso, que é melhor. Mas não só isso, o tijolo pode ser feito por uma cooperativa, que é melhor do que ser feito por uma empresa onde só tem um dono ganhando. Então são duas coisas que eu posso melhorar na fabricação do mesmo tijolo. E eu posso, ainda, usar o barro na fabricação do tijolo que vem de uma fonte que é menos impactante do que uma outra. Já são três coisas. Se você começar a fazer esse tipo de analise para todos os materiais que compõe uma casa, eu posso intervir em várias coisas. Cada coisinha pode ser melhorada, desde os materiais até a maneira com que eu vou usar a casa. Nós sempre trabalhamos com a questão de sustentabilidade de um material comparando com uma versão anterior daquele mesmo produto. Existe algum tipo de obra em que se aplique mais os conceitos de sustentabilidade? A gente vê sustentabilidade em tudo, desde a habitação social, a menor unidade possível até grandes empreendimentos de indústrias tem gente trabalhando com sustentabilidade. Não é numa escala só, a gente vê prefeituras, governos de estados preocupados com isso.
E o custo dessa sustentabilidade? É mais caro. Vários artigos falam que uma construção nova, que tem algumas praticas mais sustentáveis, custam 5 ou 6% mais caro. Entretanto, ao longo do tempo você vai tendo uma redução na manutenção desses custos iniciais, então fica mais ou menos 20% mais barato no consumo de energia e água. Eu achava que o custo era maior, já li artigos em que se falava de 20 a 30% mais caro, que é um valor que assusta. Mas se for 5% a mais no custo total da obra, vai ter gente que achará razoável, e vai pensar em colocar esse conceito em prática. O que acontece é que esses aparatos todos, como o aquecedor de água, por exemplo, está ficando mais barato por causa da abertura de novas fábricas e da concorrência entre elas. A cada nova concorrência, as indústrias tendem a melhorar a durabilidade e diminuir o preço, pra se manter no mercado. Como é a sustentabilidade dentro e fora do Brasil? A gente está bem defasado. Você pega paises na Europa e os Estados Unidos, eles estão mais avançados na discussão de praticas na parte ambiental. Eles são paises ricos, têm como investir em tecnologia. Ao mesmo tempo esses países não têm tantos problemas sociais, ou eles não têm os mesmos problemas sociais que a gente tem no Brasil. Aqui existe um outro tipo de discussão, a gente pode não estar tão avançado nessa discussão de o que é o mais verde, o mais ecologicamente correto, mas a gente está problematizando a participação do morador, de inclusão social, de gerar mais trabalho e renda. Isso também é questão de sustentabilidade,e é uma coisa muito importante não confundir e achar que sustentabilidade é só coisa verde, tem que ter uma visão sistêmica. Então eu digo que estamos aquém em relação a outros paises, porque estamos preocupados em imitar e não resolver os nossos problemas. E Campo Grande, como está nessa questão? Está muito mal. As iniciativas são muito pontuais em edificações, mas não tem nenhuma que chame mais a atenção por se preocupar em usar técnicas sustentáveis. Em materiais você vê uma empresa ou outra preocupada, mas não vê uma grande ação. Eu soube de empresas que estão querendo triturar pneu aqui, começar a entrar nessa linha de produtos verdes.Então a gente está bem devagar nessa questão. Dentro do curso de arquitetura, como é passada essa noção de sustentabilidade aos futuros profissionais? Nós tentamos trabalhar essa visão holística. A primeira coisa que eu faço dentro da sustentabilidade é fazer com que os alunos deixem de pensar que é só ambiental e ver que é social, que é econômico, que é cultural e até política. Tudo isso é para eles perceberem que o problema não é só pontual, que o problema não é só trocar os produtos e dizer ‘pronto, agora minha obra é sustentável’. Por isso que eu sou contra essa coisa de 100% sustentável. Falamos também de materiais alternativos, ou mesmo esses materiais convencionais como a gente pode trabalhar de uma maneira melhor. Porque têm muitos materiais convencionais que as pessoas usam porque é habito ou porque é barato, sem discutir se ele é mais ou menos impactante. Temos que aprender a usar com consciência os materiais de construção, porque tem muito desperdiço, cerca de 30% do que entra numa obra vira entulho no Brasil. Em relação ao que existe hoje, como seria a sustentabilidade daqui a 20 anos? Para daqui a 20 anos a gente vai ter uma preocupação muito voltada à economia de energia, já que essa energia de hidroelétrica vai ficar ou mais cara ou com mais racionamento. Vamos trabalhar com sistemas economizadores, estaremos num outro grau de consciência. Na época do apagão mesmo, nós não deixávamos a luz acesa no cômodo vazio, trocamos as lâmpadas. Foi um habito que aconteceu num momento, numa crise, mas que as pessoas incorporaram. Hoje quando vamos comprar uma lâmpada, temos a opção de levar uma lâmpada econômica ou uma lâmpada incandescente, e apesar de ser mais cara a gente leva a econômica. Então a gente conseguiu embutir uma percepção de que mesmo sendo mais caro é melhor levar a econômica. Acho que a água vai estar até mais problemática porque por enquanto não percebemos isso, temos abundância de água. A água hoje é barata, daqui uns 20 anos a água vai estar bem mais cara e poluída. Essa coisa de comprar garrafinha de água mineral como se fosse à coisa mais natural do mundo, isso só acontece aqui no Brasil, se você for na Europa você toma água de torneira em alguns lugares. Então, água e energia elétrica são as coisas mais chamativas. Uma outra coisa que eu acho que vai acontecer é o habito do consumir em relação ao materiais de construção. Vão adquirir mais essa percepção de que precisam participar desse movimento de saber escolher melhor, não vai ser a escolha do mais barato possível, vamos incluir mais um critério, que é assim ‘ qual deles é o que menos impacta?’ Claro que junto com o preço. Porque por enquanto é só o menor preço que interessa. Você acha que no futuro a questão da sustentabilidade vai vir antes do que a questão da estética, dentro da sua área? Eu acho que os dois vão estar juntos. Hoje a gente fala de construções sustentáveis e imaginamos uma casa normal cheia de ‘coisas grudadas’, parece que você está morando numa máquina, não numa casa. Um aquecedor solar é uma coisa que você coloca depois, uma caixa d´água para recolher água de chuva é uma coisa que você vai anexando, por isso que ela é feia. Então estamos trabalhando para incorporar essas técnicas dentro da construção, pra ela ficar bonita também, junto com a noção de sustentabilidade. |