Ciência e Notícia

Universidade Federal de MS

Onde estão os nossos cérebros?

20/07/2009 às 11:38

alguns

Gisleine Rodrigues

Em 1906, pela primeira vez um homem, num aparelho mais pesado que o ar revolucionou o mundo da aviação com o seu 14-Bis, e com outras construções aprimoradas nessa área, tornou-se referência para quase todos os aviões construídos a seguir. Alberto Santos Dumont foi esse gênio, o “gênio da aviação”, e assim como ele, outros fantásticos potenciais intelectuais inovaram, se mostraram à frente de seu tempo e transformaram a sociedade na qual viviam.

Logo, não poderia deixar de citar Einstein, físico alemão que criou a teoria da relatividade. Leonardo da Vinci, exímio desenhista, também escritor e com um pensamento criativo sem igual, que contribuiu para a anatomia, botânica, mecânica e entre outros campos da arquitetura. E só para incrementar a lista, o prodígio Mozart, que aos quatro anos, sem orientação formal, tocava e compunha peças, e aos 16, já havia composto 135 obras de distintos gêneros musicais.

O que explica existirem pessoas inovadoras como essas, é uma característica própria dos humanos, a inteligência, resumida de forma objetiva pela psicóloga Iara Luiza Prado, especialista em neuropsicologia, como “capacidade do sujeito em vários níveis, na compreensão de assuntos diversos, na adaptação ao ambiente e com poder criativo.”

Conceitos de inteligência

Em um contexto mais amplo, a inteligência pode ser compreendida como a união da concepção psicométrica, nascida com o cientista Francis Galton, com a psicologia cognitivista de Jean Piaget, que considerava a inteligência como resultado da interação do sujeito com o meio, o que engloba os aspectos sócio-culturais, vividos no ambiente do qual a pessoa faz parte.

Galton considera a inteligência como algo inato, provindo de fatores biológicos, como a genética e hereditariedade, que vem com o indivíduo desde o nascimento, podendo ser medida através de testes de QI (quociente de inteligência).

Tais teorias foram estudadas pelo professor e pesquisador bielorusso Vygotsky, que explicou a inteligência como uma função psicológica superior do sujeito, desenvolvida pelo processo de internalização, a partir das relações dialéticas entre o aluno, o professor e o meio social.

A inteligência é inerente a todos os seres humanos, contudo, se desenvolve de formas diferentes em cada pessoa, por ter cada indivíduo experiências próprias na interação com o meio. No Brasil apreciamos pessoas com altas habilidades intelectuais e artísticas, tais como, Machado de Assis na literatura, Villa Lobos na música e Pelé no futebol.

Talentos notáveis

Sobre outros talentos notáveis, recentemente ouvimos as histórias do Guilherme que, aos 13 anos, passou no vestibular para química da Universidade Federal do Paraná (UFPR); do Charles, que aos 14, também conseguiu esse feito na UFPR para estudar Engenharia da Computação; e do João Vitor, que aos oito anos passou no vestibular de Direito da Universidade Paulista (Unip).

Popularmente, todas as “figurinhas carimbadas” citadas no texto são chamados de “gênios”, e, segundo a pesquisadora e psicóloga Eunice Alencar, esse foi o termo utilizado pelos primeiros pesquisadores na área da inteligência superior, como o pioneiro Lewis Terman, que deu início, nos anos de 1920, a um estudo com aproximadamente 1500 crianças, identificadas como superdotadas, com base em testes de inteligência.

Gênios mirins

Terman tinha esperança de que essas crianças, quando adultas, se transformassem em gênios, apresentando uma produção excepcional, o que não aconteceu. Entendemos, então, que apenas “mentes” como Einstein, Dumont, da Vinci, poderiam receber essa definição, pois como explica a pedagoga Marsyl Mettrau, da Universidade Salgado de Oliveira (unidade Niterói/RJ), como gênios, eles “inovaram para sua época e revolucionaram o mundo com suas idéias”.

Isso, em nenhum aspecto, menospreza o reconhecido talento de Pelé ou de Machado de Assis, que são definidos pelos estudiosos da educação e da mente humana como superdotados, ou seja, pessoas com altas habilidades em alguma área, acima da média das outras pessoas, mas que se diferem dos gênios por não terem gerado obras inéditas e de inigualável valor para a sociedade.

O ideal seria que a genialidade e a superdotação andassem de mãos dadas, contudo, o relevante é que os superdotados souberam admirar o trabalho dos gênios e aprimoraram e exploraram muito bem as idéias deles.

É de se destacar o compromisso que a sociedade deve ter com suas ‘mentes pensantes’, como explica a educadora Marsyl Mettrau em seu artigo O superdotado é um gênio?, publicado no site da instituição de ensino Criança & Cia, “se é consenso de que nada deve ser desperdiçado, como permitir o desperdício de talentos”.

Dora Simonetti, educadora da Associação Brasileira de Altas Habilidades / Superdotação, afirma que, como “mídia”, precisamos “esclarecer à sociedade que não se deve valorizar uns talentos em detrimento de outros”. É preciso olhar atento para enxergar o potencial de cada pessoa, desde a criatividade para se desenhar, à habilidade para desenvolver complexas teorias da física.

Práticas Educacionais

Em conversa com a pedagoga especialista do Núcleo de Atividades de Altas Habiliades / Superdotação (NAAH/S), e mestre em educação Cynthia Garcia Oliveira, foi possível compreender que a educação é fundamental, entre outros aspectos, no processo de valorização dos indivíduos.

Isto porque os educadores e os demais responsáveis pela educação (família, sociedade) podem e devem estimular todos os demais alunos da sala de aula, considerados não-superdotados, além de dar atenção especial aos alunos com altas habilidades, para estimular e, quem sabe, aumentar seu talento.

Assim, poderão descobrir e desenvolver novos potenciais intelectuais e/ou artísticos que estavam escondidos, mesmo que não alcancem o status de superdotados, gozarão de uma educação melhor. Desta forma, a sociedade só tem a ganhar, pois cultiva os talentos que já tem e pode construir muitos outros.

Carecemos de estatísticas confiáveis sobre o número de alunos com altas habilidaddes/Superdotação (AH/SD), segundo os especialistas. Mas a estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), é de que 3,5% a 5% das pessoas de qualquer população, em qualquer país, apresentam AH/SD.

No Brasil

No caso brasileiro, isso corresponderia a oito milhões de brasileiros e cerca de 2,5 milhões de alunos, segundo os números do Censo Escolar de 2007. Vale lembrar que essa estimativa está baseada apenas nos testes de QI, um teste que não consegue medir inteligências das áreas não cognitivas, como a produção-criativa na música e a habilidade psicomotora no esporte. Por aqui a prática é nivelar, como se todos fossem produzidos em uma linha de montagem de fábrica.

Especialistas em educação concordam que o nivelamento é excludente, porque ignora a heterogeneidade dos indivíduos, deixando de lado as diferentes necessidades de cada um. Cynthia Oliveira explica que “se a sociedade prega a educação para todos, como forma de igualar as capacidades e desenvolvimentos dos alunos, neste tipo de sociedade haverá a necessidade de atendimentos especiais para os alunos com deficiências físicas e mentais, com dificuldades de aprendizagem e para alunos com capacidades e potencialidades superiores aos colegas de seu contexto”.

A pedagoga acrescenta que o oposto do método do nivelamento é ter uma “sociedade que se preocupa em oferecer uma educação para todos, de forma a oportunizar um bom desenvolvimento das habilidades de cada um, esta seria de fato uma forma de educação igual para todos, onde todos ficam satisfeitos podendo dar suas contribuições conforme suas capacidades diferenciadas e neste caso não é preciso atendimento especial, pois as necessidades especiais seriam resolvidas em sala de aula com a interação entre os colegas, o meio escolar e o professor como mediador desse processo”.

Estímulos

Não se pode continuar a perder “inteligências”. Muitas mentes pensantes estão ‘no armário’, à espera de estímulos que as tirem dalí. O Brasil já progrediu com a instituição de políticas públicas e pesquisas na área acadêmica, mas seu progresso poderia ter sido bem maior, não fosse seu investimento tardio, principalmente na educação pública.

Só a partir de 2005 foi iniciada uma estratégia nacional para capacitar professores da rede pública para o reconhecimento e trabalho das potencialidades dos alunos. Educadores ressaltam que o atraso resultou no desperdício de milhares de talentos que poderiam contribuir para o desenvolvimento do País.

Gisleine Rodrigues

Em 1906, pela primeira vez um homem, num aparelho mais pesado que o ar revolucionou o mundo da aviação com o seu 14-Bis, e com outras construções aprimoradas nessa área, tornou-se referência para quase todos os aviões construídos a seguir. Alberto Santos Dumont foi esse gênio, o “gênio da aviação”, e assim como ele, outros fantásticos potenciais intelectuais inovaram, se mostraram à frente de seu tempo e transformaram a sociedade na qual viviam.

Logo, não poderia deixar de citar Einstein, físico alemão que criou a teoria da relatividade. Leonardo da Vinci, exímio desenhista, também escritor e com um pensamento criativo sem igual, que contribuiu para a anatomia, botânica, mecânica e entre outros campos da arquitetura. E só para incrementar a lista, o prodígio Mozart, que aos quatro anos, sem orientação formal, tocava e compunha peças, e aos 16, já havia composto 135 obras de distintos gêneros musicais.

O que explica existirem pessoas inovadoras como essas, é uma característica própria dos humanos, a inteligência, resumida de forma objetiva pela psicóloga Iara Luiza Prado, especialista em neuropsicologia, como “capacidade do sujeito em vários níveis, na compreensão de assuntos diversos, na adaptação ao ambiente e com poder criativo.”

Conceitos de inteligência

Em um contexto mais amplo, a inteligência pode ser compreendida como a união da concepção psicométrica, nascida com o cientista Francis Galton, com a psicologia cognitivista de Jean Piaget, que considerava a inteligência como resultado da interação do sujeito com o meio, o que engloba os aspectos sócio-culturais, vividos no ambiente do qual a pessoa faz parte.

Galton considera a inteligência como algo inato, provindo de fatores biológicos, como a genética e hereditariedade, que vem com o indivíduo desde o nascimento, podendo ser medida através de testes de QI (quociente de inteligência).

Tais teorias foram estudadas pelo professor e pesquisador bielorusso Vygotsky, que explicou a inteligência como uma função psicológica superior do sujeito, desenvolvida pelo processo de internalização, a partir das relações dialéticas entre o aluno, o professor e o meio social.

A inteligência é inerente a todos os seres humanos, contudo, se desenvolve de formas diferentes em cada pessoa, por ter cada indivíduo experiências próprias na interação com o meio. No Brasil apreciamos pessoas com altas habilidades intelectuais e artísticas, tais como, Machado de Assis na literatura, Villa Lobos na música e Pelé no futebol.

Talentos notáveis

Sobre outros talentos notáveis, recentemente ouvimos as histórias do Guilherme que, aos 13 anos, passou no vestibular para química da Universidade Federal do Paraná (UFPR); do Charles, que aos 14, também conseguiu esse feito na UFPR para estudar Engenharia da Computação; e do João Vitor, que aos oito anos passou no vestibular de Direito da Universidade Paulista (Unip).

Popularmente, todas as “figurinhas carimbadas” citadas no texto são chamados de “gênios”, e, segundo a pesquisadora e psicóloga Eunice Alencar, esse foi o termo utilizado pelos primeiros pesquisadores na área da inteligência superior, como o pioneiro Lewis Terman, que deu início, nos anos de 1920, a um estudo com aproximadamente 1500 crianças, identificadas como superdotadas, com base em testes de inteligência.

Gênios mirins

Terman tinha esperança de que essas crianças, quando adultas, se transformassem em gênios, apresentando uma produção excepcional, o que não aconteceu. Entendemos, então, que apenas “mentes” como Einstein, Dumont, da Vinci, poderiam receber essa definição, pois como explica a pedagoga Marsyl Mettrau, da Universidade Salgado de Oliveira (unidade Niterói/RJ), como gênios, eles “inovaram para sua época e revolucionaram o mundo com suas idéias”.

Isso, em nenhum aspecto, menospreza o reconhecido talento de Pelé ou de Machado de Assis, que são definidos pelos estudiosos da educação e da mente humana como superdotados, ou seja, pessoas com altas habilidades em alguma área, acima da média das outras pessoas, mas que se diferem dos gênios por não terem gerado obras inéditas e de inigualável valor para a sociedade.

O ideal seria que a genialidade e a superdotação andassem de mãos dadas, contudo, o relevante é que os superdotados souberam admirar o trabalho dos gênios e aprimoraram e exploraram muito bem as idéias deles.

É de se destacar o compromisso que a sociedade deve ter com suas ‘mentes pensantes’, como explica a educadora Marsyl Mettrau em seu artigo O superdotado é um gênio?, publicado no site da instituição de ensino Criança & Cia, “se é consenso de que nada deve ser desperdiçado, como permitir o desperdício de talentos”.

Dora Simonetti, educadora da Associação Brasileira de Altas Habilidades / Superdotação, afirma que, como “mídia”, precisamos “esclarecer à sociedade que não se deve valorizar uns talentos em detrimento de outros”. É preciso olhar atento para enxergar o potencial de cada pessoa, desde a criatividade para se desenhar, à habilidade para desenvolver complexas teorias da física.

Práticas Educacionais

Em conversa com a pedagoga especialista do Núcleo de Atividades de Altas Habiliades / Superdotação (NAAH/S), e mestre em educação Cynthia Garcia Oliveira, foi possível compreender que a educação é fundamental, entre outros aspectos, no processo de valorização dos indivíduos.

Isto porque os educadores e os demais responsáveis pela educação (família, sociedade) podem e devem estimular todos os demais alunos da sala de aula, considerados não-superdotados, além de dar atenção especial aos alunos com altas habilidades, para estimular e, quem sabe, aumentar seu talento.

Assim, poderão descobrir e desenvolver novos potenciais intelectuais e/ou artísticos que estavam escondidos, mesmo que não alcancem o status de superdotados, gozarão de uma educação melhor. Desta forma, a sociedade só tem a ganhar, pois cultiva os talentos que já tem e pode construir muitos outros.

Carecemos de estatísticas confiáveis sobre o número de alunos com altas habilidaddes/Superdotação (AH/SD), segundo os especialistas. Mas a estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), é de que 3,5% a 5% das pessoas de qualquer população, em qualquer país, apresentam AH/SD.

No Brasil

No caso brasileiro, isso corresponderia a oito milhões de brasileiros e cerca de 2,5 milhões de alunos, segundo os números do Censo Escolar de 2007. Vale lembrar que essa estimativa está baseada apenas nos testes de QI, um teste que não consegue medir inteligências das áreas não cognitivas, como a produção-criativa na música e a habilidade psicomotora no esporte. Por aqui a prática é nivelar, como se todos fossem produzidos em uma linha de montagem de fábrica.

Especialistas em educação concordam que o nivelamento é excludente, porque ignora a heterogeneidade dos indivíduos, deixando de lado as diferentes necessidades de cada um. Cynthia Oliveira explica que “se a sociedade prega a educação para todos, como forma de igualar as capacidades e desenvolvimentos dos alunos, neste tipo de sociedade haverá a necessidade de atendimentos especiais para os alunos com deficiências físicas e mentais, com dificuldades de aprendizagem e para alunos com capacidades e potencialidades superiores aos colegas de seu contexto”.

A pedagoga acrescenta que o oposto do método do nivelamento é ter uma “sociedade que se preocupa em oferecer uma educação para todos, de forma a oportunizar um bom desenvolvimento das habilidades de cada um, esta seria de fato uma forma de educação igual para todos, onde todos ficam satisfeitos podendo dar suas contribuições conforme suas capacidades diferenciadas e neste caso não é preciso atendimento especial, pois as necessidades especiais seriam resolvidas em sala de aula com a interação entre os colegas, o meio escolar e o professor como mediador desse processo”.

Estímulos

Não se pode continuar a perder “inteligências”. Muitas mentes pensantes estão ‘no armário’, à espera de estímulos que as tirem dalí. O Brasil já progrediu com a instituição de políticas públicas e pesquisas na área acadêmica, mas seu progresso poderia ter sido bem maior, não fosse seu investimento tardio, principalmente na educação pública.

Só a partir de 2005 foi iniciada uma estratégia nacional para capacitar professores da rede pública para o reconhecimento e trabalho das potencialidades dos alunos. Educadores ressaltam que o atraso resultou no desperdício de milhares de talentos que poderiam contribuir para o desenvolvimento do País.

Potencial e informação em quantidade temos, mas ainda carecemos de sistemas “não-niveladores” o suficiente para o beneficio de todos. Motivo para lamentar? Prefiro acreditar que seja estímulo para melhorar. Assim como disse a psicóloga Ângela Virgolim, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília, “vencer medos e preconceitos é o desafio que nos espera”.

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