Ciência e Notícia

Universidade Federal de MS

Inteligência humana

20/07/2009 às 12:00

Escondidos atrás de mitos e crenças, muitos talentos ainda esperam ser identificados.

Cérebro

Graziela Reis

Pessoa magra, pálida, de óculos com lentes grossas, obsessiva, insociável e nerd. Todos os adjetivos citados são quase sempre associados aos ditos superdotados. Os mitos e as crenças que cercam essas pessoas são alguns dos aspectos que dificultam o seu entendimento, bem como o atendimento especializado aos alunos com Altas Habilidades/Superdotação.

Nem pálida e nem dona de grandes óculos com lentes grossas, Ludiane de Jesus Sousa, de 18 anos, foi identificada há um ano pelo Núcleo de Atividades de Altas Habilidades/ Superdotação (NAAH/S) de Mato Grosso do Sul como aluna com Altas Habilidades/Superdotação. Artista nata, Ludiane aprendeu a desenhar com dois anos de idade e a ler com quatro. Hoje, além de destaque nas áreas de artes e línguas, ela também é um fenômeno no esporte.

Para desmistificar a figura do superdotado e identificar a superdotação como característica presente em muitos alunos, destacando potencialidades únicas de personalidade, como a curiosidade, a criatividade, a persistência e a motivação, o MEC/SEESP (Ministério da Educação/ Secretaria de Educação de São Paulo) implantou em 2005, em todo o país, os Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/ Superdotação (NAAH/S).

No Estado

Em Mato Grosso do Sul, o NAAH/S foi implementado pela Secretaria de Estado de Educação para atender alunos matriculados nas redes estaduais e municipais de ensino. O Ministério da Educação demonstra que o percentual de crianças superdotadas ou com Altas Habilidades no ensino regular, varia de 3% a 5% dos alunos matriculados, entretanto poucos alunos foram identificados até o momento.

Pedagoga no NAAH/S e especializada em educação, Cynthia Garcia Oliveira, acredita que a dificuldade em identificar os alunos com Altas Habilidades começa pela falta de informação dos profissionais em educação que atuam nas escolas. “Muitas vezes, o professor, por não conhecer sobre o assunto superdotação, não sabe identificar esse tipo de aluno em sua sala de aula”, afirma.

A coordenadora de Educação Especial da Secretaria de Estado de Educação (SED), Vera Carbonari, defende que além de se investir no potencial dos alunos com Altas Habilidades deve-se também enriquecer o currículo do professor.

Superdotado ou apenas muito inteligente?

Cynthia Garcia explica que é preciso que se diferencie o aluno superdotado daquele que é tido como muito inteligente. “O superdotado tem uma Alta Habilidade acima da média, ele geralmente aprende sozinho, quase não estuda e tira nota boa, enquanto que o aluno que é muito inteligente é, geralmente, muito esforçado e dedicado, por isso tira boas notas”, assinala.

“Eu sempre aprendia as coisas mais rápido que os outros e todo mundo me chamava de nerd na escola”, diz Mateus Barbosa Cassiano, 14 anos. Aluno do NAAH/S, Mateus revela que hoje sabe quase tudo de informática e muito do que aprendeu foi por conta própria sem precisar fazer cursos para isso.

Para o NAAH/S, os alunos com Altas Habilidades/Superdotação são aqueles que apresentam grande facilidade de aprendizagem, que dominam rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes, ressaltando duas características marcantes da superdotação: a rapidez de aprendizagem e a facilidade com que estes indivíduos se engajam em sua área de interesse.

As crianças destacadas pelo NAAH/S são as que apresentam notável desempenho e elevada potencialidade em aspectos isolados ou combinados: capacidade intelectual geral, aptidão acadêmica específica, pensamento criador ou produtivo, capacidade de liderança, talento especial para as artes e capacidade psicomotora.

O mito do super-homem

“Metido”, “sabichão”, “exibido”, “nerd” e “CDF”. As pessoas que apresentam Altas Habilidades costumam ser taxadas e tratadas por alguns desses apelidos. E para os que acreditam que ser superdotado é ser super-homem e gozar de uma vida fácil, não é bem assim que funciona. Muitos deles sofrem com o preconceito.

João*, de 28 anos, que hoje cursa sua segunda faculdade, conta que já teve que dar um jeito de “esconder” sua superdotação para se sentir igual aos demais colegas de escola. “Algumas vezes eu me fingia de burro, falava que não sabia, só para ninguém perceber e eu não me sentir diferente dos outros”, revela.

Para o cientista Michael Mahoney, autor de renomadas obras sobre psicoterapia, “as pessoas que não sentem sua superdotação como válida, podem sofrer desde problemas de autoestima até de baixo autoconceito”. A doutora em educação e presidente do Conselho Brasileiro para Superdotação, Susana Graciela Pérez Barrera afirma em um estudo que isso se reflete na raridade de adultos que admitem ter indicadores de Altas Habilidades e muito freqüentemente negando-os.

“Eu fico orgulhosa, não esperava que diante da multidão ela fosse escolhida”, admite Francisca Sanches Paino, mãe de Mirela Sanches, de 13 anos, que aos dois anos já criava desenhos considerados muito perfeitos para a sua idade. Orgulho da família, Mirela confessa que também já sofreu com o preconceito dos colegas na escola.

Amor e ódio

No estudo “Mitos e Crenças sobre as Pessoas com Altas Habilidades”, Susana Graciela explica que esse sentimento de amor e ódio em relação às pessoas com Altas Habilidades teve início no Renascimento, quando os “gênios” eram alvo dele e dos mitos que a sociedade criara para estas pessoas.

“Assim como quem apresenta uma deficiência é alvo de pena e comiseração, quem manifesta uma aparente vantagem é alvo de inveja e agressão. O primeiro é privado de manifestar suas potencialidades, em detrimento de sua desvantagem, enquanto que, ao segundo, é negada a existência de suas reais desvantagens”,Graciela defende em seu estudo.

Graduado em ciência da computação e atualmente acadêmico do curso de engenharia mecatrônica da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em Curitiba, João* recorda que nos tempos de escola, era um aluno que questionava os professores. “Eu queria saber mais. Eu não queria simplesmente decorar a taboada, eu queria saber como ela foi desenvolvida”, lembra.

Susana assinala que a avidez de conhecimentos ou saberes geralmente não aprofundados na sala de aula e o elevado grau de curiosidade levam estes alunos a possuir um acervo de informações bem superior ao dos colegas e inclusive dos próprios professores. “Quando se discutem temas de seu interesse, costumam apresentar informações enriquecidas com dados obtidos em outras fontes ou, pelo contrário, indagar insaciavelmente por novas informações, o que geralmente incomoda e/ou atrapalha o ritmo da aula. Perante esses comportamentos, vistos negativamente pelo grupo ou pelo professor, são ridicularizados com epítetos deste tipo”, aponta.

*O nome é fictício a fim de preservar a identidade da fonte

fonte da foto: http://www.terrasms.com.br/2008/fotos/noticias/1246121138.jpg

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