Ciência e Notícia

Universidade Federal de MS

Os altos e baixos da inteligência acima da média

20/07/2009 às 12:06

Pesquisadora defende que a própria falha na definição do conceito de inteligência gera confusão sobre o fenômeno

Susana Graciela Pérez Barrera

Graziela Reis

Ser superdotado, sem dúvida, para muitos é sinônimo de orgulho e felicidade, porém, nem sempre é assim para aqueles que têm de sustentar uma imagem que não condiz com a sua realidade. Por trás do preconceito que cerca esses indivíduos, mitos e crenças populares tornam-se grandes vilões na desmistificação da figura do superdotado. E como qualquer mito, as suas causas geralmente estão vinculadas ao desconhecimento e à dubiedade das informações.

A doutora em educação e presidente do Conselho Brasileiro para Superdotação, Susana Graciela Pérez Barrera explica em seu estudo “Mitos e Crenças sobre as Pessoas com Altas Habilidades” que uma das causas geradoras desse mito é a falta de universalização do conceito de inteligência e conseqüentemente a definição de Altas Habilidades/Superdotação e Talento que segundo ela, gera confusão sobre o fenômeno.

De acordo com Graciela, alguns autores, principalmente os norte-americanos e europeus, defendem que as pessoas que apresentam QI (Quociente de Inteligência) elevado ou habilidades intelectuais, que são as que a escola privilegia, são superdotadas; e as que apresentam Altas Habilidades em áreas artísticas são apenas talentosas.

Autores como Howard Gardner, Joseph Renzulli e E. Winner, entre outros, combatem essa idéia e enfatizam que a pessoa com altas habilidades geralmente se destaca em uma área ou num grupo e suas características são equivalentes em qualquer área.

Parece, mas não é

Outro mito muito presente na vida dos superdotados é o fato de serem taxados de pessoas egoístas e solitárias. A pesquisadora Susana Graciela defende em seu estudo que o egoísmo e a solidão são características do comportamento humano que podem ou não estarem presentes nas pessoas com Altas Habilidades e dependem de fatores como a educação familiar, suas próprias habilidades interpessoais e até do contexto em que elas vivem.

A preferência por trabalharem sozinhas, bastante comum em Pessoas com Altas Habilidades, segundo Graciela pode decorrer de seus interesses freqüentemente diferentes aos do seu grupo etário e, às vezes, de seus mecanismos de aprendizagem diferenciados que, muitas vezes, podem inviabilizar ou dificultar o trabalho em grupo.

Ou ainda, as pessoas com inteligência acima da média, ao preferirem o trabalho individual, podem estar de alguma forma tentando se protegerem da avalanche de preconceitos que lhes são atirados por todos os lados.

Habilidade de liderança

Para toda regra existe uma exceção. A pedagoga Cynthia Garcia Oliveira, ressalta que não são raras as pessoas com habilidades de liderança, com uma interação social extremamente desenvolvida e grande preocupação com a injustiça e problemas como a pobreza, por exemplo.

Mateus Barbosa Cassiano, 14 anos, aluno do 9° ano, considerado superdotado, conta que além de possuir um grande círculo de amizades, frequentemente é convidado pelo diretor da escola para coordenar e organizar os eventos da instituição. “Eles sempre me chamam para organizar, eu gosto disso”, diz Mateus.

Nota 10

A velha máxima de que “o superdotado é bom em tudo, é o aluno nota 10”, talvez seja uma das maiores crenças disseminados até hoje na sociedade sobre as pessoas que apresentam altas habilidades.  A idéia da “Superdotação Global” que espera que a pessoa com Altas Habilidades tenha um desempenho uniforme em todos os aspectos, o que gera expectativas irreais quanto a ela, é facilmente descartada.

Ludiane de Jesus, que cursa o 3° ano do ensino médio na escola Hércules Maymone, em Campo Grande, confessa que, apesar de ser incluída no grupo das Pessoas com Altas Habilidades, nunca foi tão boa nas disciplinas de física e química, no entanto, ela encontra grande facilidade nas áreas de humanas, artes e educação física.

Atualmente, pesquisadores têm-se debruçado no estudo de alunos com Altas Habilidades com baixo rendimento pela freqüência com que esta situação é verificada. A pedagoga Cynthia Oliveira explica que este mito se apóia na imagem ideal do bom aluno, geralmente o modelo perseguido na escola tradicional.

Segundo ela, com a aplicação de testes psicopedagógicos, geralmente se descobre alunos que se destacam em uma ou mais áreas específicas, mas não necessariamente em todas, e nem por isso deixam de serem alunos de Altas Habilidades/Superdotação.

Para Cynthia, o maior problema dos testes de QI está justamente na avaliação quantitativa e não qualitativa que este método tradicional prioriza. “Os testes de QI exigem um desempenho equilibrado em disciplinas acadêmicas como requisito para a aprovação, deixando de lado a avaliação para as habilidades em artes e psicomotoras, por exemplo”, explica.

Superdotado, gênio, prodígio: quem é quem?

A confusão entre Altas Habilidades e genialidade ou prodígio, assim como a forte vinculação ao alto desempenho acadêmico, fazem com que se pressuponha a raridade de sua incidência. De acordo com Cynthia Oliveira, talvez a mais grave destas confusões seja a que se tem observado nos últimos tempos, com a hiperatividade, patologia neurológica que apresenta alguns sintomas que, quando não suficientemente investigados, podem ser confundidos com algumas características de Altas Habilidades.

Segundo Cynthia, a confusão que se faz entre os termos superdotação e hiperatividade, tem resultado em Pessoas com Altas Habilidades erroneamente diagnosticadas e até medicadas com drogas indicadas para pessoas hiperativas. Isto, porém, não quer dizer que não possa haver Pessoas com Altas Habilidades que sejam, também, hiperativas.

De acordo com o Conselho Brasileiro para Superdotação (Conbrasd), a habilidade superior, a superdotação, a precocidade, o prodígio e a genialidade são gradações de um mesmo fenômeno, que vem sendo estudado há décadas em diversos países.

Para o Conbrasd, é chamada de precoce a criança que apresenta alguma habilidade específica prematuramente desenvolvida em qualquer área do conhecimento, seja na música, na matemática, na linguagem ou na leitura. Já o termo “criança prodígio” é utilizado para sugerir algo extremo, raro e único, fora do curso normal da natureza.

Gênio e prodígio

Um exemplo de prodígio seria Wolfgang Amadeus Mozart, que começou a tocar piano aos três anos de idade. Aos quatro anos, sem orientação formal, já aprendia peças com rapidez, e aos sete já compunha regularmente e se apresentava nos principais salões da Europa.

Mozart, assim como Einstein, Gandhi, Freud e Portinari, entre outros mestres, são ainda exemplos de gênios, termo este reservado para aqueles que deram contribuições extraordinárias à humanidade. São aqueles raros indivíduos que, até entre os extraordinários, se destacam e deixam sua marca na história.

Ainda segundo as definições do Conbrasd, as habilidades apresentadas pelas pessoas citadas, tenham sido elas precoces, prodígios ou gênios podem ser enquadradas em um termo mais amplo, que é a superdotação ou altas habilidades. Com isso, entende-se que nem todo superdotado pode ser um gênio, porém todo gênio é um superdotado.

Desta forma, o superdotado, talentoso ou portador de altas habilidades é aquele indivíduo que, quando comparado à população geral, apresenta uma habilidade significativamente superior em alguma área do conhecimento, podendo se destacar em uma ou várias áreas do conhecimento.

Criativo e curioso

Aqueles que se destacam na área acadêmica costumam tirar boas notas em algumas matérias na escola, não necessariamente em todas, além de terem facilidade com as abstrações e compreensão rápida das coisas. O criativo tende a ser curioso, imaginativo, gosta de brincar com idéias, tem respostas bem humoradas e diferentes do usual. Já os que se sobressaem na liderança, são cooperativos, gostam de liderar os que estão a seu redor e geralmente são sociáveis.

Muitos possuem ainda altas habilidades nas áreas artística, psicomotora e de motivação. Os indivíduos que têm habilidade em expressar sentimentos, pensamentos e humores por meio da arte, dança, música ou do teatro são considerados com altas habilidades artísticas. Já os que possuem habilidade psicomotora se destacam nos esportes e em atividades que requeiram o uso do corpo ou parte dele.

Existem ainda as altas habilidades em motivação, que é quando a pessoa torna-se totalmente envolvida pela atividade do seu interesse, resiste à interrupção, facilmente se chateia com tarefas de rotina e se esforça para atingir a perfeição.

Fonte da foto:http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/servletrecuperafoto?id=W557427

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