
O desafio da aprendizagem20/07/2009 às 12:54Profissionais destacam as possibilidades de ensino para pessoas com deficiência mental e suas potencialidades
Adriane Mascaro “Somos nós quem definimos o outro. A partir desse ponto de vista, o louco confirma a nossa razão; a criança, a nossa maturidade; o selvagem, a nossa civilização; o estrangeiro, o nosso país; e o deficiente, a nossa normalidade.” (Jorge Larrosa e Nuria Lara, na obra “Imagens do outro”) Lidar com o diferente é uma das grandes dificuldades enfrentadas pela sociedade, desde a antiguidade até os dias atuais. É inegável, portanto, que abordar a questão da inteligência em pessoas com deficiência mental traga diversas contradições e conceitos deturpados. A Constituição Federal brasileira, no Artigo 5°, diz o seguinte: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.” Será que todos são realmente iguais? Gozam dos mesmos direitos e oportunidades? Quando se fala em igualdade, é natural que se pense em direitos iguais aos negros, índios, mulheres, entre outros segmentos sociais. Porém, quando o assunto é pessoas com deficiência mental, a conversa muda, e vem logo a pergunta: Será que eles devem ser tratados iguais? Preconceito Isso reflete a verdadeira concepção que a sociedade tem a respeito do deficiente mental, ou seja, um conceito camuflado e deturpado de que são pessoas sem inteligência, incapazes, e até mesmo “coitadinhos”. Historicamente, este conceito já passou por várias correntes, mostrando que os caminhos percorridos pelas pessoas com algum tipo de deficiência têm sido permeados por diversos obstáculos, riscos e limitações. Segundo o psiquiatra Rodrigo Abdo, a pessoa tem algum tipo de deficiência mental quando seu QI (quociente de inteligência) é abaixo de 70. “Isso vem associado à dificuldade de adaptação ao convívio social, apresentando desvantagens de competir de igual para igual com outras pessoas. Além disso, essa pessoa geralmente tem um ritmo mais lento na aprendizagem”, completa. Para as pedagogas da APAE (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais), isso não é impedimento, mas apenas mais um desafio do trabalho. “Nós partimos do conceito de que o aluno é um aprendente, ou seja, que ele tem capacidades e potencialidades. O tempo da pessoa que tem uma deficiência mental é diferente, e nós trabalhamos o desenvolvimento dela justamente em cima disso”, relata Izabel de Souza Destro, pedagoga da APAE. “O mais surpreendente é que ele aprende não da forma que se espera, portanto, não se frustre se o aluno não aprender, mas se você não oferecer oportunidades para que ele aprenda.” Esse é o lema de trabalho da especialista em educação especial da APAE, Kátia Margarida Echeverria Pinheiro. “Aqui, o aluno aprende de uma maneira diferente, mas ele não é visto como incapaz”, ressalta. Um outro olhar Realmente, a maneira de trabalhar o aluno deficiente mental exige um outro ritmo, um outro olhar sobre a aprendizagem e o desenvolvimento de habilidades e da inteligência. Na sala de informática da APAE tem três computadores. Ali, é um espaço que promove a inclusão social de pessoas com deficiência, por meio da inclusão digital. A essas pessoas é dada a oportunidade de ter acesso às novas tecnologias. “Nós trabalhamos com a idéia da inclusão, a fim de que todos tenham direitos e oportunidades iguais”, afirma Kátia Margarida. Bruno é uma dessas crianças. Apesar de ser deficiente mental, a ele não é poupada essa oportunidade. Ele é visto como capaz. “Nós não vemos o problema, vemos a pessoa, e as capacidades que ela pode desenvolver”, ressalta Arlete Pereira Alonso, pedagoga e especialista em educação especial. A professora dita um texto para que Bruno digite no computador. O tema é… Bruno, muito lentamente, vai teclando cada letra. A formação das palavras e o sentido de cada uma delas em uma frase fazem com que o pequeno demonstre um sorriso que revela “estou compreendendo o sentido disso”. Depois de um tempo, a professora pergunta: “Bruno, está tudo certo?” Ele responde que sim com a cabeça. “Ter certeza?”, ela Pergunta. Mais uma vez ele confirma apenas com um gesto, e agora com um sorriso, esperando a aprovação da professora. “Então leia o texto para mim”. Bruno lê pausadamente, demonstrando certa dificuldade em articular as palavras. No entanto, ele não desiste, e vai prestando muito atenção ao que escreveu. Quando chega na palavra “também”, ele mesmo identifica o erro. “tabem”, lê. “Não é ‘tabem’, é ‘também’”, diz ele. “Nosso trabalho envolve muita paciência e amor. Nós não damos a resposta ao aluno, mas o estimulamos para que ele mesmo encontre as respostas e internalize o conhecimento.”, aponta Izabel Destro. |