Ciência e Notícia

Universidade Federal de MS

O paradoxo da inteligência

20/07/2009 às 13:00

Teoria diz que pessoas com deficiência mental podem desenvolver inteligências, desde que recebam estímulo e instrução

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Adriane Mascaro

Como dizia o filósofo e padre Santo Agostinho, já no século IV, “O primordial autor e motor do universo é a inteligência”. O apreço pelo conhecimento e por aqueles que parecem possuí-lo é uma marca muito forte do “mundo ocidental”. Mas o que falar, então, sobre inteligência em pessoas com deficiência mental? Será possível?

Para o psiquiatra Rodrigo Abdo, esse é um grande paradoxo, associado justamente ao conceito que a sociedade tem a respeito dessas pessoas. Por se tratar de alteração na estrutura cerebral, muitos acreditam que os deficientes mentais não possuem inteligência. Mas o que é a inteligência?

Segundo Abdo, “é a capacidade de resolver problemas novos, utilizando conceitos prévios”. Para o psicólogo e pesquisador russo Lev Vygotsky, “a inteligência é construída a partir das relações recíprocas do homem com o meio”. Ele destaca as contribuições da cultura, da interação social e a dimensão histórica no desenvolvimento mental de uma pessoa.

Essa teoria, segundo as pedagogas da APAE, é totalmente considerável e possível de ser trabalhada em pessoas com deficiência mental. “Como disse a Kátia, cada um aprende de uma maneira diferente, considerando-se todo o meio em que ela vive (segundo a teoria de Vygotsky). Nosso trabalho é estimulá-los o tempo todo para que eles reajam”, enfatiza Isabel.

Ela compara o desenvolvimento da inteligência à musculação. “Como você estimula e desenvolve os músculos quando você malha, assim também é com o cérebro, ou seja, ele precisa de estímulos”.

Aprendizagem não linear

Kátia Margarida explica que o aprendizado não acontece de forma linear em nenhuma pessoa, ou seja, cada um tem um processo, um tempo e uma forma de aprender e desenvolver a inteligência. Com os deficientes mentais não é diferente. “Para nós não existe certo e errado, o processo de aprendizagem é uma construção. A idéia de todos ajuda a construir o conhecimento individual”, conclui.

Com brilho nos olhos, Isabel diz que esse processo é muito mágico. Cada resposta inesperada que eles dão é um novo aprendizado também para os profissionais. “É como se cada um de nós tivéssemos uma ‘caixa preta’. Nosso trabalho é buscar essa ‘caixa preta’, e trabalhar o que tem dentro dela. Esse é um trabalho muito humano”, conclui.

Teste de QI e Teoria das inteligências múltiplas

É muito comum nas escolas, principalmente entre as crianças, a competição para ver quem é o mais inteligente da turma. Os critérios, geralmente, são as notas e, até mesmo, a posição em que cada um se coloca na sala de aula. Quem nunca ouviu falar da “galera do fundão”. Mas será que é possível medir a inteligência de uma pessoa?

Hoje, utiliza-se o teste de QI (quociente de inteligência) para medir, quantitativamente, o nível de inteligência de uma pessoa. Essa teste baseia-se em um questionário, com questões para que a pessoa responda e é em cima dos resultados desse teste que se mede o nível de inteligência. Essa metodologia, no entanto, tem sido contestada por alguns profissionais.

Kátia Margarida, especialista em educação especial da APAE, diz que o problema dos testes de QI, hoje, é que eles não estão condizentes com a realidade. “A aprendizagem de uma pessoa depende muito mais do estímulo que se dá a ela, e das influências do meio em que ela vive”.

“Os testes de QI consideram muito os aspectos quantitativo, o desafio é pensar o qualitativo, mas no fim, ele ainda é a única referência biológica que temos para trabalhar”, completa Izabel, pedagoga da APAE.

Tipos de inteligência

Howard Gardner diz, em sua obra “Estruturas da Mente”, que grande parte das informações investigadas em testes de inteligência refletem conhecimentos adquiridos pela vivência num determinado meio social e educacional, ou seja, raramente avaliam a habilidade de assimilar informações novas e resolver problemas novos.

“Dois indivíduos podem receber o mesmo score (resultado) de QI e, ainda assim, um pode tornar-se capaz de realizar um tremendo progresso em pouco tempo em conquistas intelectuais, enquanto o outro pode estar exibindo o ápice de seus poderes intelectuais”, conclui.

O psiquiatra Rodrigo Abdo diz que, na verdade, o modelo médico está passando por um processo de transição. “O enfoque tradicional transforma tudo em números, mas existe um novo pensamento, que é a teoria das inteligências múltiplas, do Gardner, que vai abordar aspectos quantitativos e qualitativos do paciente.”

Multiplicidade

Segundo ele, a teoria das inteligências múltiplas é o que tem de mais novo a respeito disso. “O interessante dessa teoria é que ela começa a lidar com possibilidades e potencialidades do paciente, não somente com as impossibilidades, que é o que acontece com a teoria tradicional.”

A teoria das inteligências múltiplas de Gardner questiona a validade de se determinar a inteligência de um indivíduo tirando-o de seu meio ambiente natural. Ele sugere que a inteligência tem muito mais a ver com a capacidade de resolver problemas e criar produtos dentro de contextos naturais, de sua vivência. “Existe uma pluralidade de inteligências, e algumas são algo que jamais consideramos como sendo uma inteligência”, diz.

Dentre os vários casos que analisou em sua pesquisa científica, Gardner estudou adultos com lesões cerebrais e como estes não perdem a intensidade de sua produção intelectual, mas sim uma ou algumas habilidades, sem que outras habilidades sejam sequer atingidas, além de pessoas com deficiência mental, como os autistas, por exemplo, e como apresentam ausências nas suas habilidades intelectuais.

Potencialidades

O interessante dessa teoria, diz Abdo, é que se abre a possibilidade de considerar a inteligência em pessoas com deficiência mental. “A idéia de inteligências múltiplas vai procurar as potencialidades que a pessoa com deficiência mental, por exemplo, consegue desenvolver.”

Gardner considera oito tipos de inteligência e diz que praticamente todas as pessoas podem desenvolvê-las, desde que recebam estímulo, enriquecimento e instrução apropriados. “É justamente isso que fazemos. Nós estimulamos e desafiamos o aluno com deficiência mental a pensar e agir”, destaca Kátia Margarida da APAE.

Cada pessoa tem capacidade nas oito inteligências, conforme Gardner, sendo altamente desenvolvido em algumas, modestamente desenvolvido em outras e relativamente subdesenvolvido nas restantes. “Investir no que a pessoa tem de bom. O caminho está nas possibilidades, ou seja, promover o talento de cada um”, conclui Abdo.

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