Ciência e Notícia

Universidade Federal de MS

Desperdício de Talentos

20/07/2009 às 13:10

Escola pública no Brasil ainda não está preparada para atender alunos com altas habilidades

Alunos com alta habilidade

Fabrício Barbosa

Qual o papel da escola nos dias de hoje? Preparar para a vida? Qualificar para o mercado de trabalho? Guardar crianças? Essas são questões que provavelmente não fazem parte do cotidiano da maioria das famílias do Brasil, infelizmente.

Diante da pergunta: “Por que o seu filho vai à escola?”, três dentre dez mães questionadas pela reportagem informalmente responderam: “Porque é o certo, é assim que tem que ser”, sem nem tentar listar as inúmeras vantagens da educação como as demais fizeram. Algumas demonstraram até indignação diante da pergunta. Será essa mais uma norma de conduta social?

E quando os filhos já estão na escola, surge então uma outra questão – como a escola lida com seus alunos? A premissa “somos todos iguais perante a lei” poderia facilmente ser utilizada aqui, já que todos os alunos são iguais perante a escola pública no Brasil.

Sem distinções, baseando-se em indicadores como idade e conhecimentos prévios, alunos são separados em grupos e depois alojados em salas, onde usando os mesmos livros, vestindo os mesmo uniformes, fazendo as mesmas provas, são julgados aptos para ir para a próxima série ou não. Quem não se encaixa, fica para trás. Tudo isso seria perfeito se os alunos fossem realmente todos iguais. Mas Ao entrar numa nova sala de aula, o professor experiente já consegue após algumas aulas identificar os “tribos” daquele grupo. Os bagunceiros, os falantes, os esportistas, os “nerds”. “Cada aluno tem seu grupo e cada grupo exige um tratamento diferente do professor”, conta Nilcemar Martins, professora e atual diretora da Escola Estadual Coração de Maria. Mas o que acontece quando um aluno exige um tratamento que, tradicionalmente, professores não são capacitados para oferecer?

Esse é o caso dos alunos superdotados ou com altas habilidades, que recebem pouco ou quase nenhum atendimento condizente às suas necessidades de aprendizado. Desde os bancos da academia, professores são orientados a se preocupar com alunos de baixo rendimento.

Descobrir porque eles não acompanham o ritmo da turma, ajudá-los em suas dificuldades. “Quando um aluno tira notas boas e não dá trabalho, isso é um alívio para o professor, ainda mais numa escola pública, que já é cheia de problemas”, conta Vanda Barbosa, professora de Geografia na rede pública de ensino. Mas e quando o aluno se sobressai aos demais? Como ele deve ser tratado?

Nerds e superdotados

Um fato ignorado durante muito tempo e que finalmente vem recebendo atenção do poder público é a existência desses alunos com habilidades acima da média dentro das salas de aula. Muitos dos apelidados “nerds” são, na verdade, superdotados.

A superdotação é uma predisposição genética. Todos os tipos de superdotação e talento correspondem a características psicológicas e a habilidades que estão sempre mudando.

Essas características existem em diferentes intensidades, em todas as pessoas, variando de uma para outra. Até mesmo entre os superdotados existem diferenças de perfis. Um aluno pode demonstrar grande aptidão com máquinas e tecnologia, enquanto outro se destaca nas artes. Daí surge a dificuldade para identificá-los.

Mudança

A passos lentos, a relação do Brasil com seus alunos superdotados vem mudando desde 2005. Esse foi o ano da implementação do Núcleo de Atividades de Altas Habilidades / Superdotação (NAAH/S), órgão do Governo Federal criado pelo MEC e implantado em todo o Brasil.

O NAAH/S identifica superdotados e desenvolve atividades personalizadas de acordo com o perfil de cada aluno, no horário oposto ao da escola. A pedagoga Angélica Guerra, ex-funcionária do NAAH/S em MS, justifica o atendimento oferecido fora do contexto escolar.

Segundo ela, “as Altas Habilidades só começaram a ser atendidas recentemente e, portanto, não são de conhecimento da grande maioria dos profissionais da educação”.

Escola para formadores

A proposta do NAAH/S em Mato Grosso do Sul, especificamente, visa antes à formação desses profissionais para, a partir de então, iniciar o atendimento dos alunos superdotados dentro da própria escola, porém sem descartar os atendimentos extra-escolares, para o aperfeiçoamento das habilidades e necessidades particulares de cada um.

No entanto, esse atendimento dentro da escola não saiu do papel e pouco tem sido feito para a inclusão do aluno superdotado no ambiente escolar e para melhor aproveitar suas potencialidades.

Nilcemar conta que a escola onde trabalha só começou a ser atendida pelo NAAH/S em 2007 e hoje apenas um aluno continua a receber acompanhamento do núcleo. Apesar disso, não há uma troca de informações sobre como o aluno é estimulado na escola e como ele é estimulado no núcleo.

Indiferença

Muitos alunos nem sabem que convivem diariamente com um aluno superdotado. Ou seja, o problema que deveria ser resolvido dentro do ambiente escolar é levado para um outro local e a escola acaba sendo alijada dessa possibilidade de crescimento.

A única formação na escola de Nilcemar aconteceu com os professores e restringiu-se a um passo a passo de como identificar prováveis alunos com altas habilidades para serem encaminhados ao núcleo. Apesar disso, o NAAH/S reafirmou que ações dentro da escola estão previstas em suas atividades, mas a longo prazo, e que o atendimento fora da escola irá continuar até lá.

Estatística

Ao analisar dados do Censo Escolar 2006, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), descobre-se a existência de 2.553 alunos superdotados no Brasil, mas a estimativa é que possa existir até 1.487.431 jovens de 6 a 17 anos com superdotação e que ainda não foram identificados.

Tal número só evidencia a urgência de repensar o modelo de educação utilizado no Brasil de maneira a torná-lo mais efetivo na inclusão de tais alunos.

Ana Arguelho, doutora em Literatura e professora do curso de pedagogia da UEMS, acredita que o modelo educacional do Brasil está ultrapassado e precisa ser todo repensado. “Muitas vezes, colocar os filhos na escola tal qual ela está hoje tem sido mais prejudicial do que proveitoso”, comenta Ana, que possui uma pesquisa na área de literatura dentro de escolas públicas de MS e diz já ter presenciando situações de total descaso aos alunos dentro delas.

Escola parceira

Ações como aquelas propostas pelo NAAH/S são muito importantes em curto prazo, mas não deixam de ser medidas paliativas. É um prejuízo muito grande quando alunos superdotados passam despercebidos e deixam de ter suas aptidões exploradas devido à deficiência da escola ou dos órgãos competentes em relação a esse aspecto.

O papel da escola no Brasil precisa com urgência ser debatido publicamente, não apenas no que diz respeito à inclusão de alunos com altas ou baixas habilidades, mas também em relação a abordar as individualidades e potencialidades de cada aluno, independente dele ser superdotado ou não. “Já está mais do que na hora da escola ser um local de debate público e difusão de conhecimentos em diferentes níveis e vertentes, de maneira inclusiva e acessível a todos”, conclui Ana.

fonte da foto: http://www.brasiliaindica.com.br/joomla/images/stories/Imovel/AlunoAltaHabilidade2.jpg


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